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diariobombeiro



Quinta-feira, 17.02.11

Cantanhede: Balanço de um mandato na primeira pessoa


TRÊS ANOS NUM ÚNICO MANDATO, SEM RECANDIDATURA, MAIS DE DEZ NA CASA, IDALÉCIO OLIVEIRA, O PRESIDENTE CESSANTE DA ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE CANTANHEDE SAI "SATISFEITO, PARA DAR 0 LUGAR A NOVOS CONTRIBUTO E COM 0 SENTIMENTO DE MISSÃO CUMPRIDA".


Porque é que não se recandidatou?
Já estou nesta casa há muito tempo... acompanhei a construção do quartel, são mais de dez anos, e três na presidência bastaram para conhecer outros problemas, outras dinâmicas e para cumprir todos os objectivos que tinha quando me candidatei.
É altura de dar a vez a outras pessoas, a novas ideias, novos procedimentos, novas formas de estar.

Essa é a resposta genuína ou politicamente correcta?
É a verdade. A passagem do anterior mandato para este meu implicou uma grande responsabilidade. Fiquei a braços com a necessidade de pagar parte dos encargos da construção do novo edifício, apesar de já estar acabado, e equipá-lo.. .havia que cumprir. E fi-lo com muito rigor.

A braços com muitas contas?
Sim a bracos com contas elevadíssimas mas correu tudo muito bem. Foi uma responsabilidade que assumi na passagem do testemunho ... meta traçada e cumprida.
Houve um dado importantíssimo que foi o destino do edifício do antigo quartel. Ambicionávamos uma futura utilização pública (objectivo proposto pela anterior direcção). Valeu-nos a colaboração com a Câmara Municipal que, entendo eu, deve estar sempre presente. Fizemos uma parceria como futura proprietária do antigo quartel. Reunimos várias entidades e movimentos representativos da comunidade para encaminhar todo o processo.

Com que intenção?
É simples, esta associação não é só dos sócios mas também da população. A associação serve todos. Parece-nos que o caminho foi o mais correcto. A venda de um património desta importância implicava envolver a comunidade para alcançar o fim certo. Não foi uma demissão de responsabilidades, até porque o espírito da direcção foi transmitido às partes envolvidas...

E que espírito era esse?
Tivemos propostas noutro sentido que não aceitamos ... queríamos que o edifício ficasse ao serviço do público. O objectivo foi conseguido graças ao papel da câmara que tem lá a loja do cidadão e outros espaços de utilidade. Manteve-se a traçada exterior. Correu tudo muito bem.

Aposta muito em parcerias...
Claro que sim. Cada vez mais as entidades têm que suportar os seus próprios encargos e investimentos. Já não existe a velha ideia de que há subsídios para tudo. No caso, o quartel estava feito mas ainda era preciso fazer muita ginástica orçamental. Neste momento a Associação tem tudo pago sem qualquer ónus maior. .. deixamos tudo numa situação tranquila

É esse o seu maior orgulho, o acerto de contas? -
Tivemos que dar resposta a compromissos que estavam assumidos mas por cumprir porque a associação não tinha meios financeiros para o fazer....estava apostada na construção do quartel, e bem, e portanto o valor desta obra esgotou elevados montantes.

0 que sobrou para si?
Muita coisa. . muito mesmo, quase tudo. Havia necessidade de dotar o corpo de bombeiros de meios e condições para um bom funcionamento. A associação tem que ser dotada de condições para funcionar bem-como uma empresa.

Significa gerir despesas e receitas.. .mais?
...e os serviços que prestamos, temos que os prestar com qualidade. Neste último mandato herdamos todos esses compromissos e essas obrigações.

Exemplifique.
Foi preciso quase tudo, equipar o quartel, os homens, os funcionários, desde viaturas a fardas e até equipamentos para georeferenciação. Foi preciso meter mãos à obra para cumprir esses objectivos ...

Como fez?
Com muito apoio externo. . .Todos os investimentos se traduziam em montantes elevadíssimos. Não podíamos deixar de o fazer. Fardas, por exemplo, foi um investimento fortíssimo. . mais de 40 mil euros. As pessoas têm a imagem das instituições, em primeiro lugar, pela forma como seapresentam e depois pela forma como actuam ...lá fora devem ficar com boa impressão do que é esta família.

Mas a compra de viaturas mexeu com mais números...
Sim, a aquisição de viaturas foi um esforço brutal... os equipamentos são específicos e todos muito caros. A viatura de combate a incêndios florestais, conseguimos em parceria com a câmara- municipal de Cantanhede, a ambulância de socorro em parceria com a câmara, junta de freguesia e comissão de compartes, e aí foi logo um investimento de 180 mil contos.
E mais o equipamento do edifício em si, as zonas sociais, as salas de convívio e formação, mas o foco das preocupações foi para a central de comunicações. E o espaço nuclear... é ali que cai tudo.

Tinha o dinheiro da venda do antigo quartel.. .mas insiste em dizer que havia muitas contas para pagar, três viaturas para comprar. Como fez?
Muitas parcerias, conciliando vontades e foi tudo resolvido.

Cansado de cumprir tanto objectivo?
É um cansaço gratificante. Somos voluntários. Esta é uma estrutura com grande peso. Quando falo do quadro de pessoal que temos, dos quilómetros que fazemos ...isto exige trabalho, ainda que gratificante.

Também existiram percalços, ou foram só vitórias?
Não foram só vitórias. Tivemos um percalço, um azar, a demissão de um comandante.

Demitiu-se voluntariamente ou, foi mais ou menos forçado a isso por pressão da Administração?
Nós forçámos as pessoas a entender as competências de cada órgão e respectiva articulação de funções. Temos competências e procedimentos a cumprir e insistimos para que se respeitem os estatutos. Afinal a associação é detentora do corpo de bombeiros e não o inverso. Foi um conflito ... demorou tempo, mas resolvemo-lo bem.

E também teve um momento trágico.
Sim. .. foi uma perda de um bom homem e de um bom bombeiro. Um momento muito sentido de que não pretendo falar

0 que fica de positivo entre conflitos e soluções?
A direcção esteve sempre muito coesa e muito participante em todas as decisões que eram tomadas. No inicio do mandato fiz o convite a todos os directores incluindo os suplentes, o que não é usual, para estarem presentes nos trabalhos ao longo dos três anos ...e eles estiveram, sempre. Todas as semanas sentávamos a esta mesa nove pessoas para discutirmos e sabermos o que fazer. As potencialidades de cada um foram bem aproveitadas ... quando era preciso tempo para pensar dava-lhes tempo.

É um modelo de estratégia que aplicou a esta direcção ou é a sua forma de estar na vida?
É a minha forma de estar em tudo navida. Que as pessoas acrescentem ideias... nunca nesta mesa foi tomada uma decisão que não fosse uma unânime.
Isso deixa-me muito satisfeito.

Mas unanimidade por necessidade ou convicção?
Há aqui uma grande partilha e sempre que havia uma decisão mais difícil a tomar adoptei uma metodologia que ajudou muito a encaminhar tudo favoravelmente: delegar competências. Dentro do corpo directivo, consoante a experiência que cada um trazia da sua vida profissional, delegamos competências: sendo enfermeiro estava dentro das matérias da saúde, o técnico oficial de contas era o homem certo para ficar com competências nas matérias financeiras, quem estava no ramo da manutenção automóvel era o indicado para resolver os problemas do nosso parque automóvel e ajudar na aquisição de viaturas. Foi assim ...e em muitas dessas situações eu nem estava presente. Se não tinha competências na matéria deixava aos outros à procura das melhores soluções e depois decidíamos.

Funcionou.. .talvez porque a última palavra tivesse que ser sempre a sua?
Das decisões mais pesadas recordo a aquisição da viatura do combate a incêndios ... encargo financeiro enorme com quatro pessoas a fazer análise, a consulta, a apreciação das propostas e eu não estava inserido porque entendo pouco de viaturas.

No final.. .decisão unânime? Sim. Claro.

Para quando a entrega do testemunho ao novo presidente?
A tomada de posse tem que ser até final de Fevereiro, nós apresentamos contas e, nessa mesma reunião, os novos órgão sociais tomam posse.

E com que sentimento entrega o lugar? Muito tranquilo ... missão cumprida.

0 que tem que haver no futuro na nova direcção, em seu entender?
Tem que haver esta articulação de competências de que já falei ... naturalmente existirão problemas mas julgo que estão resolvidas as condições para tudo correr bem. A Associação tem o corpo de bombeiros mas quem manda na associação são os sócios, quer queiramos quer não. Para isso existem as assembleias. Esta última assembleia mostrou bem esse poder... os sócios vieram cá e vieram para votar. Os que não quiseram mandar não apareceram. "Queremos que eles administrem a associação nos próximos três anos" foi o que quiseram dizer... eles decidiram, há que respeitar. E uma decisão bem demonstrativa de quem é o dono da casa ..,.são os sócios, não o presidente, nem o comandante.

Reforço a pergunta, o que tem que existir na nova direcção?
Cordialidade e sensatez ... estamos a um mês e meio do início de um novo mandato e todos sabemos os objectivos estratégicos da nova direcção. Estão escritos. Foram divulgados e eu conheço-os. Fico satisfeito porque parte deles representam continuidade do trabalho que eu tinha feito, mas também sinto que aqueles objectivos estratégicos trazem algo de novo. Como lhe disse, provam que é importante dar lugar a novas pessoas...

Volta ao ponto inicial da nossa entrevista?
Sim, volto ...há que dar lugar a novas forças e a minha palavra para a nova direcção é de optimismo e força. Alguns dos objectivos propostos são ambiciosos e outros inovadores gostava que os conseguissem atingir. Que o fizessem com muito rigor...

Rigor já foi a palavra que usou para adjectivar a sua governação... concretize.
Rigor é quando temos um objectivo a cumprir e temos que o fazer com persistência, com muita transparência. O conjunto de todos esses bons atributos é que é o rigor. Esta associação trabalha todos os dias com pessoas na sua maioria debilitadas, estamos a falar de incêndios, doenças, acidentes ... e portanto as coisas têm que ser feitas com rigor desde a pessoa que atende um telefonema, a quem conduz a ambulância. Tudo deve ser feito rápido e bem.

Contraria o ditado: "depressa e bem não há quem"
Sim ... no caso tem mesmo que ser. Os nossos voluntários, a comunidade, todos sabem que deve ser assim, agir rápido e bem. Com todo o rigor.

Deixa algum projecto com a esperança que lhe seja dada continuidade?
O Museu Comandante Eva...é justo, fico com essa esperança.

in: Boa Nova

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por Diário de um Bombeiro às 01:27



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