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diariobombeiro



Quarta-feira, 20.04.11

Cantanhede: “A população que servimos pode estar confiante na nossa capacidade”

Jorge Miguel Jesus, 39 anos, é o mais novo comandante dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede. Tomou posse domingo passado, com a devida pompa. Na sua primeira entrevista, concedida ao Diário de Coimbra, fala sem receios, sem tabus, e não contorna qualquer questão. Nem mesmo quando lhe perguntamos se está preparado para apagar “os fogos” que possam surgir no seio da corporação; ou se vai ser um comandante remunerado, como, aliás, pretendia o anterior. A actividade de bombeiro está-lhe “na massa do sangue”, e este novo cargo assenta-lhe “como uma luva”. Liderança, ambição, responsabilidade, qualidade, ideias, projectos... não lhe faltam para elevar o prestígio da corporação.

DIÁRIO DE COIMBRA (DC) - Como é que o corpo de bombeiros acolheu a sua nomeação para comandar a corporação?
JORGE JESUS (JJ) - Só posso responder a esta questão com base no que veja e ouço. Tendo em consideração a forma como fui acolhido no dia da minha tomada de posse (domingo), julgo que foi bem aceite pela generalidade das pessoas. Estiveram presentes os bombeiros do corpo activo, do quadro de honra, fanfarra, anteriores e actuais membros dos órgãos sociais bem como todos os anteriores comandantes e elementos de comando (actualmente no quadro de honra), interpretando isso como um sinal de concordância no que diz respeito à minha pessoa como comandante desta associação.

DC - Conhecendo como conhece “a casa”, os problemas, por onde vai começar para transmitir outra imagem da corporação?
JJ - A minha principal preocupação neste momento é essencialmente com as pessoas que compõem a nossa “família”, sendo que são elas que representam, transmitem e dignificam de forma natural o que é e o que significa a nossa associação. Uma corporação de bombeiros com 108 anos de vida que sempre representou bem alto os valores do voluntariado, da cidadania, do socorro e sempre se distinguiu como uma instituição respeitosa e respeitada. Na minha opinião penso que a associação já vive outra realidade, o que vai ter o seu reflexo positivo na nossa comunidade muito em breve e para o qual conto com a ajuda dos meios de comunicação social falada e escrita.
 
DC - Já transmitiu ou vai transmitir ao corpo de bombeiros as linhas orientadoras do seu comando?
JJ - Agora que já tomei posse como comandante, iniciarei os trabalhos de imediato, sendo no decurso destes primeiros tempos que transmitirei a todos os bombeiros quais os meus objectivos e pretensões para o futuro desta associação. Devo salvaguardar o facto de ser neste momento o único elemento do comando, mantendo sempre em aberto a possibilidade de integração de novas ideias e novos projectos sugeridos pelos membros que irão incorporar o restante comando, assim como dos bombeiros e órgãos sociais no seu geral. Todos temos a mesma ambição, que é a dignificação da associação e o reconhecimento do trabalho desempenhado por todos, sem excepção.

DC - Os dois últimos comandantes não conseguiram chegar ao fim dos mandatos. Acha que pode inverter esse estigma?
JJ - É óbvio que é esse o meu preceito, caso contrário nunca teria aceitado este desafio. Para o progresso é necessário haver estabilidade do comando e direcção e uma forte cooperação entre todos. Quando se assume um cargo desta relevância é necessário perceber as implicações que poderão advir. Já fiz parte de um comando desta associação como adjunto e já fui comandante em regime de substituição, apreendendo com essas experiências as dificuldades e desafios que terei de enfrentar.

DC - Está preparado para enfrentar os incêndios reais e os “fogos” que possam surgir no seio da corporação?
JJ - A experiência que adquiri a combater incêndios ao longo de 24 anos permite-me afirmar que estou preparado para eventuais ocorrências que o futuro nos reserva. Considero que problemas pontuais possam surgir no seio da corporação, como em qualquer outra associação, mas não se tratam de fogos pois queremos trabalhar na prevenção e equilíbrio entre todos. Nós lidamos diariamente com um grupo de pessoas de faixas etárias muito distintas, com ideias e vontades divergentes e que acima de tudo abdicam de forma gratuita do seu tempo para ajudar a associação a atingir o seu objectivo primordial, que é ajudar o próximo. Tendo em consideração estes aspectos é necessário lidar com as questões da melhor maneira possível, tendo acima de tudo respeito, consideração e sempre valorizando o trabalho e esforço de todos perante esta nobre causa. Só através da conjugação de opiniões divergentes é possível construir e desenvolver novos projectos.

DC - Tem os meios humanos e materiais para enfrentar a época de incêndios que se avizinha?
JJ - Sim, neste momento possuímos os meios que considero essenciais para enfrentar, a já nossa conhecida, época de incêndios. A população que servimos pode estar confiante na nossa capacidade e no trabalho de preparação já realizado. É óbvio que se estivessem ao nosso dispor mais meios humanos e materiais seriam bem-vindos, no entanto o actual corpo activo é detentor de conhecimentos e meios que nos permitem dar resposta aos eventuais incêndios que poderão surgir. A nossa associação aposta na qualidade da formação e na manutenção apropriada dos meios ao seu dispor, colmatando desta forma algumas necessidades perceptíveis, como sendo a necessidade de renovação do nosso parque de viaturas.
Temos de consolidar os investimentos efectuados em anos transactos e reforçar de forma progressiva as nossas necessidades, no entanto cautelosamente face à actual conjuntura económica que o nosso país atravessa. Desta forma, foi iniciada a candidatura para obtenção de uma viatura pesada de combate a incêndios florestais (VFCI) por intermédio do QREN.

DC - E em matéria de socorro a vítimas de sinistralidade rodoviária, a corporação está bem equipada?
JJ - Infelizmente a sinistralidade rodoviária é cada vez mais frequente, obrigando os corpos de bombeiros a ter equipamento apropriado para o efeito, assim como pessoas especializadas para este tipo de situação. Os bombeiros de Cantanhede não são excepção. Podemos orgulhosamente afirmar que possuímos equipamento recente, evoluído e constantemente preparado para responder a estes pedidos de socorro. Como não seria de estranhar, um comandante idealiza sempre vir a ser o detentor da última tecnologia existente na área para optimizar o socorro das vítimas, dos bens e do ambiente.

DC - Sei que vai apostar na formação dos bombeiros. Como e em que áreas?
JJ - Gostaria de proporcionar ao corpo activo formações nas mais diversas áreas, com a introdução de metodologias mais recentes, práticas e evoluídas, assim como a criação de um centro de formação apropriado às necessidades de hoje. Esta ideia foi partilhada e impulsionada pelos novos membros da direcção, havendo comum acordo sobre a matéria. As formações serão nas áreas da saúde, salvamento e desencarceramento, incêndios florestais e urbanos, estabelecimento de posto comando, telecomunicações, salvamento em grande ângulo, legislação e outros. É meu propósito optimizar as competências profissionais dos bombeiros que prestam serviço nesta associação, incrementando desta forma o seu espírito de missão dando continuidade à excelência da sua formação.

DC - E a Escola de Bombeiros, vai continuar a recrutar voluntários?
JJ - Primeiramente é necessário começar a fazer uma correcta gestão dos voluntários que já compõem o corpo activo, começando por preencher as vagas existentes nos quadros no momento, ambicionando a iniciação de uma nova escola, assim que as condições o permitirem.

DC - O que espera da Direcção da Associação?
JJ - Dos membros que compõem a direcção liderada pelo Engenheiro Rogério Marques, sei que haverá grande empenho, apoio e colaboração para conseguir elevar o nome da associação cada vez mais alto, glorificando desta forma todos os que se dedicam aos Bombeiros Voluntários de Cantanhede. É bem visível a orientação da direcção em criar condições para que todos os bombeiros se sintam bem no exercício das suas funções, com respeito, lealdade e dignidade que as suas funções exigem. A minha integração nas diversas reuniões de direcção, antes mesmo da minha tomada de posse, demonstra total colaboração e lealdade perante a minha pessoa e os elementos que represento, sem desrespeitar a pessoa que ocupava o cargo em regime de substituição. 

“Sentimento de missão cumprida é a nossa única recompensa”

DC - Quem vai integrar o Corpo de Comando?
JJ - A composição do meu comando será revelada em tempo apropriado, sendo que é necessário ultrapassar trâmites legais por forma a avançar com a divulgação dos mesmos. Posso apenas garantir que são escolhidos com base num projecto por mim idealizado, sendo que as primeiras pessoas que irão ser informadas serão os próprios bombeiros, sendo posteriormente feita a divulgação pública desses nomes.

DC - Como lhe nasceu o gosto de ser bombeiro?
JJ - Os bombeiros formam uma instituição com a qual cresci. O meu pai foi bombeiro e foi através dele que conheci o voluntariado. Integrei a corporação muito jovem e com o passar dos anos o gosto pela causa foi aumentando cada vez mais.

DC - Como é que um economista/bombeiro concilia as duas actividades?
JJ - A conciliação entre as duas actividades já não é novidade para mim. Quando assumi os cargos de anteriores comandos já tinha que enfrentar este desafio. Essa dualidade só pode ser sustentada numa organização familiar, profissional e operacional bem estruturada.

DC - Vai ser um comandante remunerado?
JJ - Não, não serei um comandante remunerado, neste mundo de hoje em que tudo parece que se mede pelo custo e benefício. A única recompensa que eu, assim como qualquer um dos bombeiros voluntários recebe é o sentimento de missão cumprida e saber que o nosso esforço permitiu salvar uma vida ou minimizar o sofrimento de alguém. O voluntariado é o conjunto de acções de interesse social e comunitário em que toda a actividade desempenhada reverte a favor do serviço e do trabalho. É feito sem recebimento de qualquer remuneração ou lucro. É uma profissão de prestígio pois o voluntário ajuda quem precisa contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário. 

por José Carlos Silva
fonte: DC

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por Diário de um Bombeiro às 11:21



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