Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

diariobombeiro



Sexta-feira, 15.03.13

B.V.Cantanhede: "A Chama que Comanda a Vida"

Está ligado aos Bombeiros Voluntários de Cantanhede (BVC) desde os 11 anos de idade, quando entrou para a fanfarra da corporação. Em 2011, com 39 anos, Jorge Jesus, licenciado e mestre em Economia, tornou-se no mais jovem comandante da — longa — história dos BVC. 

Jorge Jesus nasceu em Coimbra, corria o ano de 1972. Os dois primeiros anos de vida foram passados com a mãe e a irmã, em Cantanhede, até que, em 1974, foi com a progenitora para França, país onde o pai de Jorge Jesus trabalhava há alguns anos. 

 “A minha irmã ficou em Fátima, num colégio de freiras, e depois foi ter connosco a França passados uns anos”. O pequeno Jorge permaneceu em Créteil, na zona de Paris, até 1982 e desses tempos guarda gratas memórias. “Recordo-me de praticamente tudo: da minha escola primária, dos meus colegas... Era um ensino diferente daquele que se praticava em Portugal. Claro que só vim a descobrir isso anos mais tarde. No geral, França era um país muito diferente de Portugal”. Também os pais de Jorge Jesus se adaptaram bem ao novo país de acolhimento. “Adaptaram-se muito rapidamente. Gostam muito de França. Ainda hoje, depois de já estarem em Portugal há algum tempo, continuam a ver canais de televisão franceses”.

Por se terem identificado com a cultura francesa, incentivaram o filho a integrar-se completamente na sociedade. “Tinha professores e colegas franceses. No entanto, conforme ia passando de ano, fui tendo cada vez mais colegas de outras nacionalidades”. Jorge Jesus tem ainda bem presente na sua memória o tempo que passava com os amigos de infância. “À quarta-feira não havia aulas. Comecei a jogar futebol e isso foi meio caminho andado para arranjar um grupo de amigos”. O dia livre que tinha a meio da semana era ainda aproveitado para pôr a leitura em dia. “Acordava um pouco mais tarde e ia para a catequese. Depois, à tarde, ia para a biblioteca. Gosto muito de ler. Naquela altura lia livros juvenis. Hoje leio mais livros técnicos, de Economia e de legislação”.

Um “até já” a França

Depois de oito anos a viver em França, Jorge Jesus regressou com a mãe a Cantanhede. “O meu pai ficou lá, só veio para Portugal depois de se reformar, em 2005. Vim com a minha mãe para Cantanhede porque a minha avó materna estava muito doente. Infelizmente, acabou por falecer”. Passar a falar diariamente o idioma português não foi difícil. “À quarta-feira, em França, também tinha aulas de português, na altura financiadas pelo Governo de Portugal. Era um daqueles programas que existiam para manter viva a nossa cultura no estrangeiro. E eu tive a oportunidade de acompanhar as matérias que eram leccionadas em Portugal”. 

 Porém, houve um episódio que o deixou triste. “Por exemplo, se em França estivéssemos no 8.º ano [lectivo], aqui entrávamos para o 7.º. Fiquei desiludido, mas logo de seguida encarei isso como um desafio. Lembro-me de uma professora de Biologia me dizer que era melhor eu atrasar um ano porque senão ia ter muitas dificuldades. No final do ano tive cinco a todas as disciplinas, excepto a Português, em que tive quatro”.

O sucesso escolar foi sempre uma constante na vida de Jorge Jesus e, muito antes de concluir o ensino Secundário, já sabia o que queria seguir. “Sempre fui uma pessoa muito organizada e com objectivos traçados. Tinha a opção de ir para Medicina ou para Economia. Escolhi Economia, também por achar que requeria menos esforço. Sou um pouco preguiçoso no estudo...”, conta, entre risos. Em 1987 candidatou-se à Universidade de Paris para cursar Economia. “Não gosto muito de dizer isto, porque pode ser mal interpretado, mas a verdade é que nunca ponderei tirar o curso em Portugal. Achei que França me proporcionaria melhores condições para continuar a estudar”. “Excelente”. 

Esta é a palavra a que Jorge Jesus recorre para caracterizar a sua passagem pela Universidade de Paris. “Correu tudo como eu esperava. E ainda tive a sorte de ter como colegas alguns amigos de infância”. No entanto, o que mais lhe agradou foi a vertente prática do curso, uma falha muitas vezes apontada ao ensino superior em Portugal. “Estagiámos no sector privado e no público, em vários países. Estive em Inglaterra, em Itália, em Espanha e na Alemanha”. Completou a licenciatura em 1992 e inscreveu-se logo no mestrado em Economia Financeira, que concluiu em três anos.

Passo seguinte? “Mesmo quando estava fora passava os meses de Agosto em Portugal e, desde cedo, decidi que era cá que queria trabalhar. Aqui o ritmo é menos stressante. A vida de emigrante é muito trabalhosa. Para os meus pais proporcionarem, a mim e à minha irmã, a estabilidade financeira que sempre tivemos, sabíamos que eles tinham de começar a trabalhar às seis da manhã e só acabar às sete ou oito da noite”. De volta a Cantanhede, começou por trabalhar no sector administrativo de uma empresa de pequena dimensão. “Foi bom para me adaptar à cultura empresarial portuguesa”. Logo que se sentiu preparado para “voos” mais altos, candidatou-se a um cargo numa multinacional espanhola, com delegação em Coimbra, onde permanece até à actualidade e onde é director do departamento financeiro.

Quando a sirene toca

Mas em terras gandaresas Jorge Jesus é mais conhecido por ser o comandante dos BVC, cargo que ocupou em 2011. De facto, a sua ligação à corporação cantanhedense remonta a 1983, quando ingressou na fanfarra dos BVC. Tinha apenas 11 anos. “O meu pai tinha sido bombeiro e incentivou-me a entrar para a fanfarra”. Com 14 anos entrou, como cadete, para a equipa de operacionais da corporação. “Fazia o chamado trabalho de sapa. É uma fase de aprendizagem. Abastecia os veículos, lavava-os...”. 

 Mesmo quando regressou a França para se licenciar continuou a ser bombeiro em Cantanhede, embora só nos três meses de férias lectivas. “Vinha de férias, não para me divertir, mas sim para ajudar no quartel. Isto é uma paixão que não desaparece”. Foi aos 15 anos que ajudou, pela primeira vez, a combater um incêndio. “Lembro-me perfeitamente. Foi em Portunhos. O cenário não me assustou porque quando lá chegámos o incêndio já tinha sido dominado”. “O primeiro grande susto que apanhei foi na Serra da Boa Viagem [na Figueira da Foz], já tinha 17 ou 18 anos. Mas o pior foi em 2003, aí pensei que não ia sobreviver. Eu e mais quatro bombeiros ficámos rodeados pelas chamas...”.

Infelizmente, nem todos os bombeiros têm a mesma sorte e Jorge Jesus já perdeu alguns camaradas. “Camaradas” e não “colegas”. “Uma corporação é como uma família, com as suas virtudes e defeitos. Mas na altura da acção não há dúvidas, sabemos que dependemos uns dos outros”. Depois de muitos anos ao serviço do quartel de Cantanhede, houve um período em que Jorge Jesus se afastou das suas funções de adjunto do Comando. “Não concordava com o caminho que estava a ser seguido e afastei-me”. Este interregno, de ano e meio, revelou-se demasiado penoso. “Os primeiros três meses foram de uma violência extrema”, desabafa. Porém, ainda em 2010, recebeu um convite muito especial. 

A Direcção da Associação Humanitária dos BVC da altura sondou-o para que ele assumisse a liderança do comando da corporação. Uma proposta irrecusável, mas que não podia ser tomada de ânimo leve. “Deve ter sido a decisão mais difícil que tive que tomar até agora”. O apoio que diz ter recebido de diversas pessoas levou-o a ponderar aceitar o desafio. Contudo, a última palavra coube a uma pessoa em especial. “Falei com a minha esposa e disse-lhe que a decisão dela seria a minha”. Neste caso, terá ajudado o facto de a mulher já ter sido bombeira.

A 17 de Abril de 2011 tornou-se no mais jovem comandante dos BVC. Desde logo aplicou a sua energia e conhecimentos na reestruturação da corporação. “Implementei uma dinâmica virada para a formação e para as novas tecnologias”. E está satisfeito com a reacção do seus operacionais? “Já o disse e continuarei a dizê-lo: estes são os melhores bombeiros de Portugal”.

A esquiar e a dar tacadas

Nos dias que correm, os Bombeiros, a empresa em Coimbra e outras actividades profissionais “roubam” a maior parte do tempo de Jorge Jesus. Ainda assim, o economista tem vindo a trabalhar na sua tese de doutoramento, pela Universidade de Paris, que espera ter concluída em breve. Durante muitos anos encontrou no golfe uma forma de descontrair. “Deixei de jogar futebol porque me deixou algumas mazelas nos joelhos”. Começou a praticar golfe em França, durante a juventude. “Sou um mero amador...”, confessa. Ainda treinou durante alguns anos no campo de Cantanhede, “mas quando vim para comandante arrumei os tacos”. É o contacto com a Natureza.


por Luís Monteiro / Jornal AuriNegra

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Diário de um Bombeiro às 14:13


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Março 2013

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31




Tags

mais tags