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diariobombeiro



Quinta-feira, 25.08.11

Ana Paula Ramos, Comandante dos Bombeiros da Pampilhosa

Zelo, competência e postura

Cmdt Ana Paula Ramos
Mãe, trabalhadora, estudante, e comandante dos voluntários de Pampilhosa. Aos 38 anos Ana Paula Almeida Ramos conseguiu afirmar-se num universo que até há bem pouco estava reservado aos homens.
Comanda um contingente de cerca de 60 bombeiros, num quartel onde as mulheres há muito deixam a sua marca e representam cerca de 40 por cento do número total de operacionais.
Embora não esconda orgulho pelo percurso trilhado, encara este novo desafio com naturalidade, tal como enfrenta uma vida nem sempre fácil, mas decididamente a que escolheu.
Não abdica de ser uma mãe sempre presente, uma profissional cumpridora, uma estudante aplicada e uma comandante à altura das exigências do corpo de bombeiros da Pampilhosa.
Em declarações ao nosso jornal, Paula Ramos fala dos sonhos da infância, diz que “Queria ser polícia”, aspiração que nunca se concretizou, pois tinha outra missão reservada.
O voluntariado iria orientar o percurso desta mulher de armas e leva-la, a alterar o rumo e o cunho masculino que marca a história dos bombeiros portugueses. Mesmo que involuntariamente Ana Paula Ramos quebrou barreiras, para se assumir uma excepção que pode ditar a regra.

Bombeiros de Portugal (BP) – Que idade tinha quando percebeu que os bombeiros iriam fazer parte da sua vida?
Ana Paula Ramos –
Aos 18 anos, quando comecei a abdicar das actividades típicas da juventude em prol dos bombeiros.
 
BP – Como é que a família encarou essa decisão? Sentiu apoio ou de alguma forma a tentaram demover? 
Ana Paula Ramos – O meu pai aceitou bem, contudo mantendo-me sempre debaixo da sua asa protectora, já que era chefe no quadro activo dos voluntários da Pampilhosa. Já a minha mãe… Nem por isso. O facto de eu e o meu pai passarmos muito tempo fora de casa, as missões arriscadas, foram factores que não lhe permitam aceitar as nossas escolhas de bom grado. Não aprovava fez sempre questão de o demonstrar.
 
BP – Como é o dia-a-dia da mulher? Como é que essas rotinas se articulam com as funções no quartel de bombeiros?
Ana Paula Ramos – Actualmente é muito complicado gerir emprego, bombeiros, vida familiar, vida universitária e vida social. Os bombeiros são um “emprego” a tempo inteiro e estão presentes na minha vida 24 sobre 24 horas. Nem sempre é fácil conciliar tudo isto. com a minha filhota, que requer muito da minha atenção – é uma criança muito inteligente e atenta a tudo o que a rodeia –, mas também com as funções de operadora que exerço no CDOS (Aveiro) e com a licenciatura em Segurança Comunitária.
Por tudo isto, o meu dia-adia é sempre uma aventura. Posso estar na festa da escolinha da minha filha e no momento seguinte a comandar um incêndio florestal ou um acidente rodoviário.
 
BP – Fale-nos um pouco do percurso que trilhou na corporação.
Ana Paula Ramos –
Entrei no CB da Pampilhosa como aspirante, em 1991. Em 1992 fui promovida bombeira de 3.ª. Quatro anos depois, em 1996, subi a bombeira de 2.ª. Sete anos depois chego a bombeira de 1.ª. Em 2006, concorri a subchefe e tornei-me na primeira mulher a ocupar esse posto nesta corporação. No ano seguinte, sou convidada para exercer as funções de 2.ª comandante.
 
BP – Os homens aceitam já aceitam com naturalidade a presença das mulheres nas corporações? Como reagem a comando no feminino?
Ana Paula Ramos –
Nunca tive problemas em ser mulher bombeiro. Atribuo isso não só ao meu desempenho e às minhas classificações, mas essencialmente ao respeito, à confiança e à camaradagem que consegui conquistar dos meus colegas e superiores.
Quanto ao facto de eu ser mulher e comandante tenho tido as melhores das reacções. Acho que cabe também a mulher o papel de se saber afirmar pelo zelo, competência e postura.
Dessa forma está dado o primeiro passo para se ser bem aceite pelo corpo masculino. Julgo que, actualmente, as mulheres já são bem-vindas às corporações… mas, friso, cabe a mulher saber estar...
 
BP – Qual é o segredo dessa instituição que consegue cativar tantas mulheres? Quantas são ao todo?
Ana Paula Ramos –
No quartel de Pampilhosa, todos os elementos são tratados da mesma forma. Por aqui, não existem “bombeiros” e “bombeiras”, são todos bombeiros.
Todos têm as mesmas oportunidades, a mesma formação, o mesmo equipamento. A todos, sem excepção, exigimos o mesmo empenho e dedicação. Elogiamos quando o merecem e repreendemos quando necessário.
 
BP – Ainda assim a corporação de Pampilhosa pode orgulhar-se de contar com a entrega, o empenho e trabalho de muitas mulheres… 
Ana Paula Ramos – Neste momento, contamos com 23 mulheres no activo e com cerca de 40 elementos masculinos.
 
BP – Fale-nos um pouco da forma como a família encara, agora, a sua actividade. 
Ana Paula Ramos – Sou divorciada. Mas tenho uma menina, a Mafalda. que demonstra orgulho na mãe. Contudo, sei que as minhas ausências não são positivas. Por isso, tento compensá-la durante o Inverno, quando as coisas estão mais calmas, mas mesmo assim… não é fácil. Há momentos irrepetíveis na vida de uma criança que, por muito que se tente, nunca poderão ser recuperados.
 
BP – Das muitas actividades que lhe estão adstritas quais as que desempenha com maior satisfação?
Ana Paula Ramos –
Tudo o que é operacional. Dá-me enorme satisfação andar no terreno com os elementos do meu corpo de bombeiros.
 
BP – Enquanto operacional de uma corporação pode destacar-nos um momento ou um episódio que a tenha marcado?
Ana Paula Ramos –
São várias as histórias que me tem marcado ao longo da vida de bombeiro, mas sem dúvida aquela que imprimiu uma marca mais forte foi um acidente grave com um bombeiro da corporação e a filha dele. É extremamente violento intervir nestas situações. Por muito traquejo e profissionalismo que se tenha, todos os bombeiros no teatro de operações acabam por ficar afectados.
 
BP – Em algum momento ponderou ou questionou a permanência nos bombeiros? Alguma vez sentiu vontade de “bater com a porta”?
Ana Paula Ramos –
Já. Muitas vezes, especialmente quando sou confrontada com as injustiças de que são alvo os bombeiros.
Por vezes penso: “Ando aqui só porque gosto disto e ainda tenho de ouvir injúrias, impropérios sobre o meu trabalho que é voluntário, benemérito?
Poderia ter escolhido ser professora ou secretaria ou outra coisa qualquer, ao menos ganhava algum e não estava exposta a tanta hipocrisia”.
Mas ultrapassadas as angustias e depois dos desabafos sei sempre porque aqui estou.

por Sofia Ribeiro
fonte: Jornal BP

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por Diário de um Bombeiro às 14:31


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