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diariobombeiro



Segunda-feira, 14.05.12

Com a ajuda de Gustavo




Artigo de Opinião:
Paulo Ferreira - JN
 
A indignação provocada pelas declarações do primeiro-ministro sobre o desemprego deveria ser o tema central desta crónica. Ao ouvir Pedro Passos Coelho dizer que "estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo" risquei umas ideias no bloco de notas para construir este texto. A atualidade ajudava: por um lado, a Esquerda reagiu com indignação a Passos; por outro, o ministro das Finanças dissera, sobre o mesma tema, coisas aparentemente opostas às de Passos numa conversa que teve com jovens de toda a Europa.
A verdade é que, quando recebi no meu iPhone a primeira página da edição de ontem do JN, mudei imediatamente de opinião. Na capa, a célebre e lindíssima foto de Carlos Martins a beijar o filho ilustrava um (quase) milagre: foi encontrado um dador de medula compatível para o seu filho Gustavo.
O menino, de três anos, precisa de um transplante para sobreviver, para continuar a dar beijos ao pai e à mãe, para continuar a ver o pai a jogar futebol, para crescer ao lado dos amiguinhos. Após uma intensa e participada campanha posta em marcha em novembro do ano passado, chegou o dia de "muita alegria", anunciado por Carlos Martins no seu blogue. Para quem nunca passou por um destes dramas, não é fácil imaginar os dias tristes e carregados de negro que Carlos e a família viveram desde que souberam da doença do pequeno Gustavo.
O que junta as duas notícias? Junta-as o facto de nos ajudarem a colocarem as coisas no seu devido lugar. A excitação gerada pelas declarações do primeiro-ministro, uma e outra vez repetidas nas televisões e nas rádios, é de importância muito, muito pequenina, quando comparada com a boa-nova que pode salvar a vida de um menino de três anos.
Um dos dramas das sociedades modernas é justamente o da relativização (ou falta dela) dos problemas. Olhar para um determinado ato (as frases de Passos Coelho) apenas no contexto em que são proferidas e não na sua dimensão absoluta é um exercício de relativização. Diria mesmo: dar-lhes a importância que elas manifestamente não têm é uma perda de tempo.
O caso de Gustavo ajuda a perceber como essa relativização chega a incomodar.
Não é fácil lutar contra isto. Antes de ter filhos, colocava na prateleira da conversa mole e inócua a opinião dos que me diziam ter passado a ver a vida com outros olhos depois de terem sido pais. Quando chegou a vez de ser eu a assumir essa condição, passei a percebê-los: um beijo do Tomás e do Rodrigo são o melhor certificado de garantia que posso obter para não me deixar prender pelo mero contexto. Eles ajudam - e muito - a resolver o problema da relativização. Olhar para a foto do Carlos Martins a beijar o Gustavo também...

Fonte: JN

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por Diário de um Bombeiro às 10:44



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