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diariobombeiro



Terça-feira, 02.08.11

Uma Falsa Certeza... por Rui Rama da Silva

Com o afastamento de Paulo Gil Martins de comandante operacional nacional (CONAC), e passada mais uma página da história da prevenção e do socorro garantidos pelos bombeiros em Portugal, de que ele inexoravelmente também faz parte, pode ficar nalguns a falsa certeza de que fica sanado o problema de fundo que lhe deu origem.

Não me vou deter sobre os considerados, os eventuais factos, nem os procedimentos técnico-jurídicos que levaram à abertura do inquérito a que Gil Martins, ao que sei, ainda estará sujeito. Nas instâncias próprias e no momento adequado irão produzir-se por certo as conclusões respectivas.

Mas, à margem disso, não posso deixar de me questionar, como tantos outros, sobre o problema de fundo, ou seja, um aludido saco azul, disseminado por várias associações que aderiram a essa colaboração de boa-fé, que ninguém ainda hoje pode questionar ou escamotear, e cientes dos problemas reais que essa colaboração poderia ajudar a superar. Tratou-se de uma colaboração através da qual, na prática, se fez face a muitas despesas urgentes e inadiáveis do sistema da protecção civil.

Onde estão, agora, os decisores políticos e os responsáveis da estrutura oficial que fomentaram, alimentaram e assentiram na continuidade desse procedimento? Ou, terá sido apenas o Paulo Gil Martins o seu único responsável, e agora bode expiatório?

Em abono da verdade, alguém poderá negar que o sistema poderia ter colapsado em determinados momentos se não fosse o recurso e a agilidade desse expediente?

Que balanço fazer da manutenção dos operadores dos CCO “travestidos” em funcionários das associações? E, inicialmente, não fizeram o mesmo com os “canarinhos”?

Não foram as associações, nessas e noutras situações, mais uma vez, a âncora e a bóia de salvação do sistema?

Qualquer manifestação de alguns treinadores de bancada e falsos profetas, hipocritamente, agora exorcizarem esse procedimento passado é tentar, sem êxito, apagar ou tentar reescrever a história da protecção civil. Na verdade, para suprir as enormes fragilidades do sistema de protecção civil, que os sucessivos decisores não conseguiram, uns, ou não estiveram despertos ou interessados em sanar, outros, houve que encontrar um expediente. E esse procedimento perpetuou-se, porventura, por tempo a mais. E, a partir desse momento, poderá também ter havido eventuais exageros no recurso a ele. Mas, nessa matéria, importa não tentar esconder o sol com a peneira porque as fragilidades do sistema permanecem. E, afastado o recurso ao dito saco azul, na realidade, mesmo assim, as associações têm continuado a ser muitas vezes o sustentáculo avançado do sistema ao assumirem com frequência custos de que depois são ressarcidas mas que, em abono da verdade, não lhe diriam respeito.

Conheço bem, e há muito tempo o Paulo Gil Martins. Fomos colegas de escola e demos os primeiros passos nos bombeiros praticamente em simultâneo. Desde logo, foram-lhe reconhecidas qualidades que viria a revelar ao longo da sua carreira, no universo dos bombeiros. Nem sempre estivemos de acordo. O nosso modo de ver as coisas, os nossos percursos pessoais e profissionais diferentes também terão contribuído para isso. Mas, em momento algum duvidei, da vontade e do empenhamento dele no desenvolvimento e na transformação do dispositivo de prevenção e socorro, essencialmente assegurado pelos bombeiros.

Com resultados conhecidos e que ficarão como registo. Hoje, Paulo Gil Martins está fora do Sistema. E, como atrás disse, com a sua partida poderá ficar a falsa certeza de que o problema, que terá estado na origem dessa saída, está sanado. Só a hipocrisia de uns pode tentar tolher os sentidos e a vista dos restantes sobre essa matéria.


Rui Rama da Silva, director do Jornal Bombeiros de Portugal
in: Jornal BP

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por Diário de um Bombeiro às 15:18


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