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diariobombeiro



Sábado, 11.12.10

Estudo Revela que As Chefias dos Bombeiros Lidam Mal com Emoções

Num qualquer quartel do País, o apoio dos colegas é um factor fundamental de sucesso para ajudar os bombeiros a ultrapassarem situações de “stress” agudo, como são exemplos os acidentes graves ou mortais que atingem de rompante a vida de cada associação.
Esta é uma das conclusões de um estudo realizado recentemente pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. O investigador e psicólogo Rui Ângelo ouviu mais de 1500 bombeiros de mais de 60 corporações. Agora, prepara-se para defender uma tese de doutoramento sobre a saúde ocupacional dos bombeiros portugueses.


O apoio dos colegas é fundamental na gestão do “stress” quotidiano, mas, em situações extremas, o líder tem um papel fundamental, porque vai ter de fazer a gestão desse incidente. Estas são palavras que foram tornadas públicas este Verão, aquando dos trágicos acidentes que vitimaram três bombeiros.
Defende o jovem investigador Rui Ângelo que, dentro da própria estrutura da Protecção Civil, devem existir equipas de suporte aos bombeiros. “Não deve ser um psicólogo que cai de pára-quedas no próprio dia, que não conhece a cultura e a terminologia, a tentar resolver situações tão delicadas como esta."
Está mais do que provado que isso só difi culta qualquer processo de intervenção”, acrescenta Rui Ângelo. Por outro lado, devem ser os “bombeiros mais experientes, com uma formação especializada”, a darem suporte em momentos de crise.
Para chegar a estas conclusões, o psicólogo entrou na família dos bombeiros e com eles viveu durante muito perto. Os resultados do projecto em que se envolveu resultam de vivências em situações do dia-a-dia de uma qualquer associação. No trabalho que agora servirá de base à tese de doutoramento, fica provado que a cultura organizacional dos corpos de bombeiros apresenta uma “atitude negativa” relativamente a tudo o que tem a ver com a expressão de emoções”. 
O estudo realça a velha máxima de que um bombeiro que não demonstre sentimentos será mais capaz de gerir os momentos difíceis.
A manutenção desta postura, que acarreta grandes prejuízos para toda a comunidade, acaba por transformar as chefias em pessoas insensíveis ao “stress” dos homens que lideram.
Em resposta a esta realidade, o psicólogo defende a “promoção da saúde ocupacional dos bombeiros portugueses, a par da liderança técnica e operacional, e da gestão do desgaste físico dos elementos”. Para tal, urge:
  • implementar políticas de formação sobre gestão do ”stress” que sejam específicas para bombeiros com função de chefia;
  • formação para chefias sobre as ferramentas para gerir o “stress” dos liderados; 
  • formação para quadros de comando sobre como desenvolver uma cultura organizacional que promova a saúde ocupacional de todos os bombeiros.

O investimento em medidas de promoção da saúde ocupacional tem um retorno assegurado em termos de diminuição do absentismo e de baixas por doença, isto de acordo com a investigação científica mais recente na área. O grande desafio que se coloca à estrutura dos bombeiros portugueses é incorporar estes princípios e medidas nos seus processos de gestão de recursos humanos e na sua cultura organizacional.

Em conclusão”, diz o investigador, “realçamos o princípio de que um trabalhador saudável e satisfeito é um trabalhador produtivo, o que, numa organização de socorro, significa salvar mais bens materiais e vidas humanas”.

O perfil do autor e a ligação aos bombeiros Rui Ângelo é licenciado em Psicologia e, desde 1999, trabalha na área da exclusão social, em bairros sociais. A sua tese de mestrado baseou-se na área da saúde ocupacional dos profissionais que actuam nestes contextos.
Posteriormente, decidiu avançar para um projecto de doutoramento e concorreu a uma bolsa, e foi aqui que apareceu a vontade de se debruçar sobre o universo dos bombeiros.

Os porquês são de fácil explicação, diz Rui Ângelo: “A quase inexistência de investigação sobre a realidade única dos bombeiros portugueses; o papel essencial que os eles desempenham na sociedade e o pouco investimento em termos da sua saúde ocupacional que é feito pelas entidades competentes; a possibilidade de ser efectuado um projecto de investigação estruturado com vários estudos, por uma universidade credível, sem qualquer custo para as estruturas de bombeiros”.

Para obter os resultados desejados, Rui Ângelo realizou inúmeras entrevistas individuais e em grupo, e para chegar perto do universo dos bombeiros portugueses contou com a colaboração da Escola Nacional de Bombeiros e da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

Agora que o trabalho está concluído, e numa altura em se prepara para defender a tese de doutoramento, Rui Ângelo tem um desejo: “Gostava de poder partilhar os resultados deste projecto ao nível do bombeiro que está no ‘directo’? Afinal, quem pode retirar mais benefícios dos mesmos? Penso que esta posição me permitiu ter uma visão equidistante do mundo dos bombeiros, desde as práticas profissionais aos estilos de liderança e à cultura organizacional, e, acima de tudo, ajudou-me a construir conhecimento sem preconceitos."

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por Diário de um Bombeiro às 12:13



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