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diariobombeiro



Segunda-feira, 15.08.11

Incêndios: Depois do mar de chamas. Os Homens da PJ não têm Medo de Pôr as Mãos no Fogo

É um dos trabalhos mais difíceis na polícia: pela brigada de incêndios da Judiciária passa de tudo, desde crimes passionais a tentativas de suicídio
São chamados a seguir ao rescaldo. Sempre que há a suspeita de que um fogo urbano, seja num carro ou numa casa, teve mão criminosa, entra em cena a brigada de incêndios da Polícia Judiciária (PJ). Em Lisboa, são 12 homens e três mulheres, todos com formação diferente - há engenheiros, físicos, químicos, psicólogos -, mas com o mesmo objectivo: recolher vestígios e provar que houve origem criminosa.

A investigação, considerada uma das mais complexas do ponto de vista técnico dentro da polícia, tem sempre o mesmo ponto de partida e o mesmo ponto de chegada. Numa fase inicial, o que a brigada faz num cenário de incêndio não é mais do que procurar o local exacto onde as chamas pararam e, depois, percorrer o caminho inverso. Um trabalho que exige "paciência" e "perícia", diz o responsável pela secção de incêndios. Mas o rasto deixado pelas chamas leva ao ponto de origem do fogo. E é aí que estará a causa da ignição. Depois deste trabalho técnico, o que se segue, explica António Carvalho, é trabalho de polícia "puro e duro". Havendo mão criminosa, há que descobrir quem desencadeou o incêndio, por que razões e ainda prová-lo. É por isso, garante o responsável, que esta é uma das carreiras mais complexas dentro da investigação criminal. "Muitas vezes não há causa-efeito entre o acto e quem o praticou", exemplifica. As motivações podem ser as mais diversas e, no que toca à parte técnica, seguir o rasto de um incêndio requer experiência. "Demora anos até que um investigador vá sozinho para um local de crime", diz António Carvalho.

Vinganças e vandalismo De qualquer forma, a grande maioria dos incêndios urbanos não tem origem criminosa. Nos carros, não são raras as situações em que avarias eléctricas desencadeiam fogos. Mas quando há fogo posto, as vinganças e o vandalismo encabeçam a lista de motivações. As vinganças estão frequentemente relacionadas com cobranças difíceis. "Quando há uma dívida que não é paga, há quem destrua o carro do devedor", explica o coordenador. Ou para servir de aviso a quem deve ou, pura e simplesmente, para prejudicar o devedor no montante do valor do carro. Casos assim podem parecer fáceis de investigar, mas não são. As vítimas nem sempre colaboram com a polícia, "por terem vergonha de admitir que devem dinheiro". Foi o que aconteceu em 1996, num dos casos mais complexos com que a brigada já se deparou. Arderam vários carros na linha de Cascais e tudo apontava para actos de vandalismo. "Até que uma das vítimas admitiu que tinha uma dívida", recorda António Carvalho. A partir daí, foi desfiar a meada. Afinal, tratava-se de cobranças de dívidas relacionadas com emissões de cheques. O grupo de "cobradores" acabou preso.

Nos incêndios urbanos, contrariamente ao que acontece nos florestais, não existe um perfil-tipo dos incendiários, apesar de serem crimes normalmente ligados a indivíduos de classe baixa "e incapazes de partir para a violência e para o confronto físico", tipifica a PJ. Normalmente, são mais homens do que mulheres. Sendo mulheres, estão em jogo razões passionais. "Uma mulher pega fogo ao carro de um homem porque sabe que é um dos pontos mais sensíveis do ego masculino", diz António Carvalho, que trabalha com incêndios há mais de 30 anos.

Se se tratar de vandalismo, os crimes são ainda mais difíceis de investigar, porque não existe uma causa concreta: é ter o carro errado no local errado e à hora errada. Aqui, os incendiários são sobretudo jovens e actuam em grupos.

A casa a arder Os fogos nas habitações raramente têm origem criminosa. Mas mesmo tratando-se de um acidente e provando-se que não houve intencionalidade no acto, a legislação prevê uma pena de prisão entre três e dez anos para quem coloque em risco a vida e os bens de terceiros - desde que os danos patrimoniais ascendam aos 5100 euros.

Muitos dos fogos de origem acidental começam devido a sobrecargas eléctricas ou devido à má qualidade de equipamentos - como extensões e fichas de marca branca que não cumprem requisitos de segurança.

Quando há intencionalidade, os crimes são maioritariamente passionais: homens que se querem vingar de mulheres. E elas deles. Frequentemente, os fogos são ateados no quarto da casa. Ou mesmo na cama, "como forma de purificação no caso de traições conjugais", exemplifica o coordenador. Pela PJ já desfilaram histórias de mulheres que atearam fogo ao roupeiro do marido, "para que ele perdesse a roupa toda e deixasse de andar bonito". Ou casos em que o dinheiro fala mais alto, como a história de um casal que decidiu atear fogo à própria oficina, porque o negócio andava mal. O plano era simples: receber o dinheiro do seguro e arranjar emprego em Angola. Acabaram presos.

Outras vezes, um incêndio pode esconder verdades ainda mais assustadoras. Há dois anos, um homem ateou fogo à própria casa. Quando a PJ chegou ao local, encontrou o cadáver da mulher, carbonizado. Tudo apontava para um acidente, mas o homicida foi traído pela sua fraca habilidade para o crime: depois de ter regado a casa com gasolina e, enquanto se afastava do local, deu-se uma violenta explosão. Saltaram da janela duas pedras de mármore, que lhe partiram as pernas. Mais tarde, as perícias viriam a mostrar que a mulher já estava morta antes de o incêndio ter deflagrado. O caso transitou para a brigada de homicídios: na verdade, o homem tinha assassinado a companheira e tentou que a morte parecesse acidental.

O gás e os suicídios A brigada dos incêndios também já está habituada a lidar com as tentativas de suicídio. Muitas delas acontecem recorrendo à libertação de gás. Há uns anos, uma mulher de 30 e poucos anos lembrou-se de meter a cabeça no forno para inalar gás e morrer intoxicada, mas não teve sucesso. Quando desistiu, sentou-se no chão da cozinha e acendeu um cigarro. Entretanto, já o gás se tinha espalhado pela casa. Como era de botija - este tipo de gás é mais pesado que o oxigénio -, concentrou-se no chão. Acender o isqueiro foi tudo quanto bastou à mulher para morrer. Outra história mais ou menos semelhante aconteceu há três anos, em Oeiras, onde um homem abriu todos os bicos do gás, em casa, e ainda tomou comprimidos para ficar inconsciente. Acordou horas depois e acendeu um cigarro. A casa explodiu, mas o suicida - por estar perto da zona da ignição - sobreviveu, apesar de ter ficado com lesões irreversíveis. São casos complicados de desvendar, porque quem sobrevive "nunca admite que foi intencional". E também há quem use o gás de casa para conseguir alterações de consciência. Uma espécie de droga muito perigosa, "porque é difícil a pessoa controlar o limiar entre a alteração da consciência, a perda dos sentidos e a morte".
 
fonte: Informação

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por Diário de um Bombeiro às 10:36


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