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diariobombeiro



Sábado, 18.08.12

Incêndios na Serra algarvia: apoios de 600 mil euros são uma "gota" em mar de cinzas

Nos montes ainda há fogo que arde sem se ver, diz quem perdeu tudo, ou quase, com o incêndio. Quando chegar o Inverno, há quem não tenha uma "pinga de azeite" para temperar a solidão.

A mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, está sentada numa pedra, à porta da casa sem tecto. "Estou metida nesta desgraça", lamenta, apontando o que se vê à volta - uma paisagem de cinzas. O fogo levou-lhe animais, parte da habitação e as árvores. Ali é a Cabeça do Velho - uma das localidades mais fustigadas pelo fogo que deflagrou, faz hoje um mês, na serra do Caldeirão. A recuperação das casas só está prevista para depois de Setembro, a remoção das árvores queimadas e a reflorestação logo se verá.

Vitalina Conceição perdeu os porcos, uma vitela e cabras. A vaca leiteira sofreu queimaduras profundas, encontra-se entre a vida e a morte, mas a ovelha deu-lhe uma alegria na quinta-feira: "Pariu um borrego preto, outro branco." A diferença da cor é porque, explica, "um saiu ao pai, outro à mãe". O pior é que a ovelha rejeitou o filho preto, a cor do carneiro. "Agora sou eu que faço de ama, dou-lhe leite pelo biberão - mais uma canseira."

O mundo tem destas coisas, não é verdade?, pergunta Vitalina, de 80 anos. Daqui por um dia ou dois, assim espera, "a ovelha acabará por dar de mamar ao filho, como fez o ano passado, na outra criação". Os borregos e a ovelha são tudo o que resta do rebanho. E no Inverno, queixa-se, não vai ter pinga de azeite. "As oliveiras arderam todas."

Ao subir a serra, com a humidade da manhã, sente-se ainda o cheiro a fumo de um dos maiores incêndios de sempre em Portugal. Sobre o que se passou há um mês, Vitalina solta as palavras que ficaram por dizer aos bombeiros e à GNR, quando a foram arrancar da casa, já em chamas. "Custou-me muito, mesmo muito, terem-me pegado ao colo, como a um gaiato. Os chinelos que tinha nos pés caíram, levaram-me descalça para a vila [São Brás de Alportel] naquela triste figura." Nas redondezas, vêem-se tubos de rega carbonizados. O fogo foi combatido, nas horas mais amargas, não apenas pelos helicópteros e bombeiros, mas pelos populares, de baldes e ramos de árvores nas mãos. "Quem vê isto tudo ardido, pode perguntar: será que os bombeiros estiveram aqui?", observa Maria Celeste Inácio, dona de uma antiga taberna, na Cabeça do Velho. Na verdade, o incêndio foi enfrentado, diz o relatório oficial, por um contingente de mais mil homens, mas já foi admitido pelo responsável máximo da Protecção Civil, Vaz Pinto, que houve "falhas" da parte do comando operacional.

Nas últimas duas semanas, assistentes sociais e técnicos do Ministério da Agricultura têm feito reuniões com as populações para avaliar os prejuízos. Só no concelho de São Brás de Alportel, a destruição atinge um milhão e 133 mil euros. "Declarei para aí uma mão-cheia de sobreiras", diz Manuel Fortes, no sítio dos Parises, acrescentando que também lhe ardeu um curral, mas que não o mencionou. "Não tenho registo, não valia a pena." Com os documentos que estão a exigir, prevê, "não vai haver ajudas para ninguém".

No dia em que fogo saltou por cima da casa onde vive, recorda, "o rebanho fugiu, as 25 ovelhas vieram refugiar-se aqui ao pé da porta". Para se protegerem, exemplifica com os dedos, "entrecruzaram-se, coitadinhas, cheias de medo". Os bombeiros, reconhece, "chegaram a tempo de salvar a casa". Mas o montado ardeu todo. "Ainda não fui para aí ver as propriedades, dá-me tristeza, não tenho coragem."

31 mil euros de apoio social

O Governo disponibilizou 600 mil euros, a dividir em partes iguais pelos concelhos de Tavira e São Brás de Alportel, para recuperar as casas ardidas. O secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa, anunciou ontem que os pagamentos de natureza social, no valor de 400 euros por pessoa do agregado familiar, prestação única, começaram ontem mesmo a ser efectuados. Numa primeira fase são contempladas 35 famílias de Tavira e seis de São Brás de Alportel, com um total de 31 mil euros. A estes apoios candidataram-se 65 famílias, das quais 41 vão já receber. Os casos das restantes 24 estão a ser analisados. O protocolo dos contratos de desenvolvimento social, mecanismo usado para transferir os 600 mil euros para as vítimas, será assinado na segunda-feira, entre as câmaras, Segurança Social e duas instituições de solidariedade social. O presidente da Câmara de Tavira, Jorge Botelho, considera que as "coisas estão a andar bem", referindo-se aos compromissos do Governo. Na Cabeça do Velho, Maria Celeste Inácio, acha que não: "Fui hoje [quinta-feira] às Finanças, porque me pediram registos das terras, mas eu não tenho nada disso." No que respeita aos apoios, mostra-se renitente. "Acho que não vai aqui chegar nada." José Dias, um vizinho de 86 anos, deixa uma pergunta e uma convicção: "Ardeu-me uma pilha de cortiça que já estava vendida por três mil euros. Será que vou receber alguma coisa? A resposta será não. Não está previsto." 
 
 
por Idálio Revez
fonte: Público

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por Diário de um Bombeiro às 14:20


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