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diariobombeiro



Quarta-feira, 31.08.11

"O Socorro Pode Estar em Causa Muito Brevemente"

A actual crise nos Bombeiros da Póvoa é, essencialmente, uma crise de tesouraria?

Não é só uma crise de tesouraria. Ao contrário de em anos anteriores também estamos com uma crise económica. Os nossos resultados têm vindo a diminuir, e certamente chegaremos ao final do ano com resultados negativos. Isto deve-se aos cortes que o Ministério da Saúde está a fazer em alguns serviços que nós prestávamos, nomeadamente no transporte de doentes para as clínicas. É uma situação a que nos estamos a ajustar, e que poderá precipitar algumas medidas dolorosas, como a redução do pessoal. Aliado a isto, a situação agrava-se com as crises de tesouraria. O Estado tarda em pagar e isso dificulta-nos muito a nossa acção. Estamos numa época de Verão em que os gastos aumentam, devido aos fogos florestais, e só uma parte dessa despesa é comparticipada. Tudo junto cria problemas a que não podemos ficar calados, porque alguém tem mudar o rumo da situação.

Que valores têm ainda por receber?

Pelas nossas últimas contas temos em dívida, dos hospitais, cerca de 150 mil euros. Nós percebemos a situação dos hospitais, porque se o dinheiro também não entra lá eles também não podem pagar aos fornecedores. A nossa relação com o Centro Hospitalar Póvoa de Varzim / Vila do Conde é muito boa, e por isso não lhes apontamos o dedo, mas sim a quem tem obrigação de resolver o problema: o Estado. Outra das coisas que nos melindra bastante é que a troika impôs determinadas condições para pôr em ordem as contas do país, e algumas estão a ser cumpridas mas outras, nomeadamente o pagamento a 90 dias, não estão.

E só este dinheiro dos hospitais que está em falta?

Também prestamos serviços para a Administração Regional de Saúde do Norte e para o INEM, mas apesar de alguns atrasos as coisas têm sido cumpridas.

No caso da intervenção dos bombeiros nos fogos florestais tem uma ideia do que devia ser pago?

Ainda não temos as contas feitas, porque há muita despesa que não é contabilizada. Mas para ter uma ideia, nesta altura do Verão a nossa despesa com gasóleo ronda os 10 mil euros, e no resto do ano ronda os 7500 euros, só esse diferencial mostra algum do acréscimo que temos no combate e prevenção de fogos florestais. Além disso, temos algumas viaturas que estão disponíveis para actuar em incêndios florestais no concelho mas também fora, e ainda esta semana uma viatura nossa foi chamada para um incêndio fora, e teve uma avaria considerável, que terá de ser reparada com dinheiro do Estado. Mas em outras situações a que acorremos as nossas viaturas têm um desgaste significativo e se não avariarem durante a época de incêndios, temos de ser nós a assumir depois essas despesas. Outra coisa que não está correcta é que temos uma grande incidência de fogos florestais fora da época, e nessa altura a Autoridade Nacional já não comparticipa. Acabam por ser os bombeiros a financiar o combate a incêndios. Ainda para mais, as verbas que nos deviam ser pagas só o são quase um ano depois, numa espécie de motivação para a próxima época de incêndios.

Os Bombeiros têm algum desconto especial no gasóleo? O preço é o normal, tal como para toda a gente. No entanto, dado o nosso volume conseguimos negociar com o fornecedor uma redução do preço do litro. Uma das formas de financiamento dos Bombeiros podia passar por essa situação de termos descontos do Estado, como no caso da Agricultura, com o "gasóleo verde".

Estes problemas de tesouraria podem provocar dificuldades diárias para a corporação?

Claro que sim. O nosso serviço é baseado em viaturas, quer seja no combate a incêndios, na emergência, ou no transporte de doentes. E as viaturas consomem combustível e têm de ter seguro, e se não o conseguimos pagar, automaticamente o contrato fica suspenso, e não podemos deixar a viatura sair sem seguro. A alguns dos nossos fornecedores podemos pedir paciência, mas para as companhias de seguro isso não é possível. Se chegarmos a esses constrangimentos será a ruptura total. Não está em causa o socorro que se faz com os meios humanos, mas sim os meios técnicos que precisamos para o fazer. Deste modo, digo, claramente, que o socorro pode estar em causa muito brevemente.

"O Governo não pode fazer cortes cegos"

A redução que foi imposta aos gastos do Ministério da Saúde pode pôr em causa o transporte de doentes?

á a ter consequências, algumas delas graves. Temos consciência que há algumas situações que não podem continuar a existir, nomeadamente de doentes que não deviam ser transportados e que o estão a ser, mas os cortes não podem ser feitos de uma forma cega. Há pessoas, com parcos recursos, que na nossa opinião deveriam continuar a ser transportados para os tratamentos. O transporte de doentes para as clínicas é uma forma de amenizar o dinheiro que gostamos em outros serviços, e que ninguém nos paga, para tentarmos equilibrar a balança. Por exemplo, temos aqui um posto do INEM, com uma tripulação dedicada a esse serviço, que feitas as contas nos dá prejuízo, mas mantemos porque é um serviço para a população, num fim social. A deixar de existir esse transporte de doentes que equilibre, por exemplo, esse serviço do INEM, as corporações de bombeiros têm de pensar seriamente a sua acção, porque estamos a caminhar para um beco sem saída.

Acredita que é possível manter os actuais serviços que os bombeiros fazem, ou os cortes que podem ainda vir porão em causa algumas coisas?

Não gosto de ser alarmista, mas acho que se não se fizer nada estamos a caminhar para uma situação de grande dificuldade. O serviço que os bombeiros ou hospital presta é insubstituível para a nossa sociedade. A situação exige que tenhamos mais consciência, que nos empenhemos mais em ultrapassar esta crise, e pensamos mais nos outros. Era preciso que a solidariedade seja mais em actos do que em palavras. Choca-me que alguém que ganha milhões de euros venha dizer que não é rico...Deviam olhar mais para a função social que cada um pode ter.

Já admitiu que pode haver uma redução de pessoal na corporação, como é que essa mensagem foi passada para o interior? Estamos a tentar que numa primeira fase seja feita de uma forma pouco dolorosa, com alguns funcionários que temos que estão no limite da idade da reforma, ou outros que estão de baixa por doença ou invalidez possa também a avançar para a reforma. Mas nesta fase acreditamos que vamos conseguir evitar despedimentos. Mas a continuar assim, teremos de seriamente repensar e estar atentos às próxima medidas do Governo, para evitarmos a bancarrota.

Sente que a Associação Nacional de Bombeiros está consciente desta situação?

As autoridades nacionais já me contactaram a dizer que iam tomar algumas iniciativas junto do Ministério da Saúde para desbloquear a situação. Já tivemos um congresso extraordinário em que este assunto foi debatido, e já houve até um protocolo entre o Governo e a Liga de Bombeiros para tentar amenizar esta redução. Mas pelo o que sentimos não está ser cumprido este protocolo. Dentro de dois meses vamos ter outro congresso, e creio que este assunto será de novo debatido mas de uma forma mais corajosa e concreta. Teremos de fazer finca-pé, porque a situação está deveras preocupante. E para não ficarmos com a responsabilidade nas mãos, temos de denunciar o que se está a passar.

"Auto-escada já está legalizada"

Quanto à auto-escada, ela já está totalmente operacional?

Seguiu nos últimos dias toda a documentação para a Autoridade Nacional. O veículo já está totalmente legalizado, e partir daí já pode combater incêndios.

Ainda em relação a este veículo, apesar da campanha do empresário Artur Antunes, os bombeiros ainda ficaram com uma responsabilidade no pagamento?

Sim, só para auto-escada tivemos disponibilizar 140 mil euros. Não estava nos nossos planos, mas não deixamos de fazer face a isso, embora com o recurso à banca. Temos mais esta responsabilidade, e isso veio também alterar um pouco os nossos planos. Mas se as condições anteriores não se alterassem não seria nada que nos assustasse. Se recebêssemos todo o dinheiro que nos devem conseguíamos pagar toda a dívida da auto-escada. E se a partir daí continuassem a pagar a aquilo que já facturamos, conseguiríamos sobreviver com algum desafogo. Mas quando "a torneira pára de pingar" ficamos sufocados.

Ainda para as despesas da auto-escada, está a decorrer um leilão, com camisolas oferecidas por alguns jogadores de futebol, como está isso?

Esteve um pouco parado, mas nos últimos tempos conseguimos dar algum mediatismo à iniciativa e esperamos que haja coleccionadores que gostem destes artigos e que licitem para que tudo junto possa dar mais algum dinheiro. O leilão decorre, na internet, até 31 de Outubro.

O parque de estacionamento que exploram na marginal continua a ser uma boa fonte de receita?

Foi o que nos permitiu passar este mês de Agosto sem tantas dificuldades. Se não fosse essa receita extra, que ronda os 20 mil euros em Agosto, a situação seria pior. Além disso sem o subsídio da Câmara também não seria possível equilibrar as contas, funciona como uma tábua de salvação.

E o número de associados mantém-se?

Não, também tem diminuído, devido a pessoas que não conseguem pagar. Temos de dezenas de desistências, ainda mantemos 8 mil sócios. Além disso temos cerca de 7 mil euros de serviços que prestamos a pessoas e que não nos pagaram, e estamos ter alguns problemas com isso.

Fonte: Expresso

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por Diário de um Bombeiro às 22:16


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