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diariobombeiro



Quarta-feira, 07.09.11

Grande incêndio na Serra de Sintra, foi há 45 anos

Passam hoje 45 anos sobre a tragédia do trágico e dramático incêndio da Serra de Sintra.

Aconteceu a 7 de Setembro de 1966 e demorou uma semana a combater. No rescaldo, perderam a vida, 25 soldados. Hoje, Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa, assinala a data com uma cerimónia evocativa às 16h00, na Serra de Sintra.

Portugal vivia uma ditadura e o povo, que não tinha voz, sempre desconfiou do número oficial de vítimas. Passam hoje 45 anos e a dúvida persiste. Afinal, quantos homens perderam a vida?
Ao assinalar-se mais um ano sobre o grande incêndio de 7 de Setembro de 1966, na Serra de Sintra, o Jornal OCIDENTE, recorda a data mas também alguns dos acontecimentos desse trágico incêndio, ainda presente na memória de muitos. Desde logo, o número de vítimas.

Na altura, os jornais avançaram oficialmente, com 25 mortos. No entanto, há quem tenha visto os cadáveres e questione o número. Argumentam que, se houvesse mais de trinta mortos, teria que ser decretado luto nacional e haveria feriado em Portugal, o que não era desejável para a economia.
Viviam-se tempos de dificuldade social, mas sobretudo de censura,  que não permitia a livre expressão.

Baseado em documentos da altura e mais recentes, reconstruímos de uma forma resumida e sucinta, a versão oficial dos acontecimentos. “O maior fogo até hoje registado na Serra de Sintra, ocorreu entre os dias 6 e 12 de Setembro de 1966, e ainda dele se fala”, escreve José Luís Filipe, no livro “Os Bombeiros Voluntários de Sintra”.

Factos oficiais
Segundo o autor do livro, o incêndio “alarmou toda a população de Sintra, tem-se conhecimento de que foi um guarda florestal a primeira pessoa a comunicar à administração florestal, por volta das 12 horas do dia 6 de Setembro, que havia fogo na propriedade da Penha Longa”. Para o local seguiram os bombeiros de S.Pedro de Sintra, “apenas às 12h57m” e os Bombeiros de Colares, “duas horas depois, foram alertados”.
António Caruna, no seu livro “Cem anos Fazendo o Bem – Associação dos Bombeiros Voluntários de Colares – “, refere que “carros e carros do batalhão de Sapadores Bombeiros, começavam a surgir a todo o instante. Por todo o lado, bombeiros e militares! À noite as chamas iluminavam a Serra. Chegavam constantemente mais corporações. As sirenes eram gritos da noite!”

No entanto, José Luís Filipe escreve que “embora à noite tudo levasse a crer que o fogo estava praticamente dominado, a verdade é que, apesar de todos os esforços desenvolvidos para extinguir o incêndio ao romper da madrugada seguinte, as chamas começaram a descer a encosta virada a norte, tendo devorado toda a zona verde da Quinta do Saldanha, Penha Longa, Lagoa Azul, Quinta de vale Flor (conhecida pela mata da Malhada e pelo Cabeço do Forcado), Mata Ruiva e Parque da Mata de Dª. Maria, Rio da Mula e Quinta dos Pisões.

A meio da tarde, é lançado através das rádios, um apelo a todas a entidades civis e militares, que possuíssem auto-tanques, para colaborarem no combate ao fogo, mandando concentrar todos os veículos na Lagoa Azul e no Largo da Palácio Nacional da Vila (Sintra)”.
Na tarde, desse dia (7 de Setembro de 1966), morrem nas chamas 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa (RAAF) de Queluz.

Fase de rescaldo
Os dias 10, 11 e 12 de Setembro, segundo o livro “Os Bombeiros Voluntários de Sintra”, “corresponderam à fase de rescaldo, havendo, ainda a salientar que no último dia os bombeiros tiveram a ajuda da chuva, o que veio resolver de uma vez por todas aquele flagelo. No combate às chamas ficaram feridos e intoxicados vários bombeiros, soldados e populares que receberam tratamento”, no Hospital de Sintra e nos postos clínicos instalados na Serra, sendo os casos mais graves tratados no hospital de São José, em Lisboa.

Ainda hoje não se sabe com certeza, quantos mortos provocou o incêndio na Serra de Sintra a 6 de Setembro de 1966. O jornalista OCIDENTE, rádio/jornal, João Paulo Teixeira, num artigo publicado no extinto jornal A PENA, com a data de 7 de Setembro de 1995, questiona o número de vítimas, cuja versão oficial, contabilizou “apenas” 25 mortos.

Edmundo Silva coutou 21 cadáveres, “quando apareceu o capitão, ainda havia mais para contar. Só que não deixou a gente contar. Alguns ainda estavam mais afastados, ainda a fumegar”, refere este bombeiro dos Voluntários de Sintra, na altura com 30 anos e que se encontrava a combater as chamas perto do local onde viriam a falecer os soldados.

Um outro testemunho de Abel Ferreira Tavares, na altura delegado Regional do Conselho Nacional dos Serviços de Incêndios para os Concelhos de Sintra e de Cascais e ex-comandante dos Bombeiros de Sintra, refere que “havia dois molhos de homens queimados um maior e outro mais pequeno”, disse o responsável, convencido que seriam mais de 30 cadáveres, ficando “admirado quando, posteriormente, vieram notícias nos jornais de 25”, acreditando que “no mínimo seriam 30” mortos.



O Diário de Notícias, de 10 de Setembro de 1966 fala de 25 cadáveres, enquanto o Diário Popular de 9 de Setembro, em entrevista ao soldado Alberto António Silva, que viveu a tragédia de Sintra, não confirma o “número exacto de camaradas que faleceram”, acrescentando que “o grupo do aspirante Barros Tavares, deslocou-se para a direita da encosta. Não se sabe quanto homens levaria consigo”.

Sem problemas com censura, o jornal italiano Il Piccolo – Trisesta de 10 de Setembro, afirma que “morreram trinta e sete soldados” e estranha o silêncio das autoridades.

Portugal vivia tempos difíceis e num regime de ditadura, de medo e silêncio que não permitia a livre expressão. Mas o povo e sobretudo alguns que viveram e sentiram o incêndio de perto, dizem que o número de mortos era superior aos vinte e cinco oficialmente confirmados pelas autoridades da época.

Em Setembro de 2011, quando passam 45 anos sobre o grande e trágico incêndio na Serra de Sintra, ainda não se sabe com certeza, quantos soldados e ou outras vítimas perderam efectivamente a vida no combate às chamas. A dúvida persiste!


Fonte: Radio Ocidente

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por Diário de um Bombeiro às 02:48



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