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diariobombeiro



Terça-feira, 30.10.12

Cinzas do fogo da serra do Caldeirão ameaçam barragem de Odeleite

A bacia hidrográfica que fornece água ao Sotavento algarvio ainda está coberta por detritos do fogo. As ravinas, despidas de vegetação, poderão transformar-se num rio de cinzas a desaguar no litoral.

A chuva dos últimos dias foi uma "bênção" para a serra do Caldeirão, depois do grande incêndio do Verão passado. Os ramos verdes, a rebentar na ponta dos troncos negros dos sobreiros, destacam-se na paisagem de cinza. Mas há uma ameaça que paira sobre a região: os cerca de 25 mil hectares de floresta ardida podem transformar-se num gigantesco balde de cinzas a despejar em Odeleite - a barragem que fornece a água a metade do Algarve.

A estabilização do solo não foi ainda efectuada, as árvores queimadas estão por remover, e há famílias, a quem quase tudo o fogo levou, a viverem em situação precária.

Maria de Lurdes, 86 anos, está sentada, de braços cruzados, na "venda" do monte Cabeça do Velho. Aproxima-se a hora do almoço, aguarda-se a chegada do padeiro. Pela porta entram salpicos de chuva, empurrados pelo vento. A mulher, vestida de preto, deixa que as gotículas lhe cheguem aos sapatos. "É uma bênção", diz.

Estamos numa das localidades mais fustigados por um dos maiores incêndios registados em Portugal nas últimas décadas. As chamas, durante quatro dias, devoraram 24.843 hectares de floresta. Apesar de ter sido mobilizado um contingente de mais de mil homens, auxiliados por meios aéreos, a tragédia não foi evitada. No balanço, ficaram as críticas (ainda sem consequências) à "falta de coordenação" dos bombeiros, deslocados de todo o país.

O Governo foi célere em prometer apoios sociais às famílias mais carenciadas, recuperação das habitações destruídas e reabilitação dos terrenos ardidos. O que falta é concretizar a maior parte dessas medidas. E há gente infeliz, com pudor em se manifestar.

Maria de Lurdes ficou sem meios de subsistência. "Ardeu-me quase tudo, se não fosse a pequena pensão que recebo, morria de fome." Uma parte da casa, onde guardava as batatas e outros produtos da terra, ardeu. "Mandei pôr uma chapas de zinco, gastei os tostões que tinha."

No passado mês de Setembro, antecipando a época das chuvas, estava previsto o início da reabilitação das 18 casas queimadas no concelho de São Brás de Alportel, mais sete no concelho de Tavira. Só na passada sexta-feira é que os municípios assinaram, em Lisboa, o contrato local de desenvolvimento social que permitirá uma intervenção mais efectiva junto das famílias carenciadas. Até agora, apenas foram atribuídos apoios pontuais, no valor de 400 euros por pessoa do agregado familiar, para fazer face a necessidades consideradas mais urgentes.

Mas não chegou a todos. "Ouvi falar nisso, mas eu não recebi nada", diz Maria de Lurdes, virando o olhar para a rua, como que a dizer que se esqueceram dela. "Se calhar acharam que era rica", observa, com ironia, a vizinha Maria Inácia. E acrescenta: "Ela não tem familiares. Se não mandasse arranjar a casa, ficava à chuva."

Estabilizar os terrenos

A Secretaria de Estado da Solidariedade e Segurança Social atribuiu uma primeira verba de 188 mil euros para fazer face às situações mais urgentes, de natureza social. Esta semana, o secretário de Estado, Marco António Costa, assinou com os autarcas locais a libertação de mais 900 mil euros para São Brás de Alporte e 650 mil para Tavira, destinados a recuperar habitações, cujas obras deveriam ter sido realizadas em Setembro. O atraso, justificou o presidente da Câmara de São Brás de Alportel, António Eusébio, "deveu-se a problemas burocráticos".

Os incentivos para a recuperação do espaço rural vão depender agora dos apoios do programa Proder (desenvolvimento rural), que tem candidaturas abertas até ao final do mês. O montante previsto para a "estabilização de emergência" dos solos atingidos pelos incêndios é de quatro milhões de euros de euros.

A Associação de Produtores Florestais da Serra do Caldeirão, sedeada no Barranco do Velho, elaborou projectos para uma área de 3500 hectares, dos quais cerca de mil correspondem a proprietários individuais. Os restantes inserem-se em zonas de intervenção florestal.

As acções que estão previstas, diz o agricultor José Sousa Pedro, da Cova da Muda, "chegam tarde, porque, se a chuva aumentar de intensidade, as cinzas que aí estão espalhadas vão desaguar na barragem de Odeleite". Este receio é partilhado pelo presidente da Câmara de Tavira, Jorge Botelho. "Ainda não chegaram aqui abaixo [as cinzas], mas há, de facto, esse perigo". O autarca do vizinho concelho de São Brás de Alportel teme que a situação se agrave. "Podemos ter sérios problemas, no que diz respeito à estabilização do solo e às linhas de água."

De resto, o relatório elaborado, após o incêndio, pela Unidade de Defesa Florestal, do Instituto da Conservação da Natureza, alertava para o perigo de contaminação das linhas de água, por via do arrastamento das terras, chamando a atenção para o facto de a área atingida compreender a bacia do rio Gilão e as subacias da Foupana e Odeleite, afluentes do rio Guadiana. A área apresenta, lê-se no documento, "condições propícias à erosão por ravinamento". Por outro lado, sublinha, a albufeira de Odeleite por fornecer a água ao Sotavento, "exige uma atenção redobrada".

O agricultor José Sousa Pedro não têm dúvidas: "A cinza vai ter à barragem. Na parte que me toca, já andei a limpar a ribeira." Frisa que, se "nada for feito, vai ser muito complicado". Quanto a apoios, acha que isso é assunto para esquecer. "Não vou apresentar candidatura ao Proder, porque dão com uma mão, tiram com a outra. A minha irmã apresentou um projecto de reflorestação e ficou desiludida. O que recebeu não paga as chatices que tem tido", justificou.

Falta a bolota para o porco e o futuro para as pessoas

Os sobreiros e medronheiros arderam, o porco ainda ficou com o rabo chamuscado, mas salvou-se. "O veterinário deu-lhe duas injecções, ficou bom", diz o lavrador Albino Henrique, no sítio das Lajes, no limite do concelho de Tavira com São Brás de Alportel.

No monte arderam duas casas e, ao contrário do que se poderia prever, já foram recuperadas. "A câmara [São Brás de Alportel] veio arranjar", conta Albino Henriques. O presidente do município, António Eusébio, explica: "Nalgumas situações não pudemos ficar à espera das ajudas do Governo, tivemos que intervir de imediato."

O autarca entende, porém, que o problema é mais vasto, uma vez que a vida das pessoas não se fica pelas casas, estende-se ao espaço envolvente. "Se não forem recuperados os terrenos ardidos, daqui por dois ou três anos voltamos a falar no perigo dos incêndios, e cada vez há menos pessoas na serra", alerta. O fogo destruiu o montado, os sobreiros e as azinheiras, e os porcos ficaram sem bolotas para comer. Perdeu-se assim uma das principais fontes de rendimento da população.

Os montes da serra algarvia dispõem de acessos razoáveis e electrificação, mas as infra-estruturas, "chegaram com três décadas de atraso", observa José Sousa Pedro, lembrando que a falta de perspectivas de futuro levou ao abandono das casas e dos terrenos, "ainda que a luz eléctrica tenha chegado a quase todo o lado".

Custódio Cavaco, um outro morador, comprador de cortiça, avança com mais um pormenor: "Quase todas as vilas tinham um matadouro, agora alguém que crie dois ou três borregos, ou porcos, tem de os levar ao matadouro de Beja." Por isso, conclui, as pessoas deixaram de criar animais. A engorda do porco para consumo próprio ainda se mantém. Quando chega o Natal, "junta-se a família, faz-se uma festa".

O desaparecimento dos sobreiros, uns devido à doença, outros por causa incêndios, está a deixar a serra cada vez mais inóspita e abandonada. "Estas árvores, ardidas, já não vão mais dar cortiça", diz Custódio Cavaco, lembrando que são precisas, pelo menos, três décadas, para que uma árvore desta espécie se torne adulta e dê rendimento. Por isso, o resultado de novas plantações que se venham a fazer, observa, "já não vai ser para os que cá estão".

Um rasto de desilusão percorre os povoados quase desertos, que salpicam a montanha. Chove na Cabeça do Velho. E a água, a escorrer pelas telhas, faz renascer a esperança de que ainda haja vida depois do incêndio. Mas o horizonte está carregado de nuvens negras. 


por Idálio Revez
fonte: Ecosfera.publico 

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por Diário de um Bombeiro às 10:48



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