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diariobombeiro



Sábado, 10.09.11

"Pela 1ª vez chorei enquanto trabalhava", conta sobre os atentados de 11 de setembro

Dez anos depois, o jornalista Osmar Freitas Jr. conta o que viu durante os atentados

11 de setembro de 2001 marcaria a estreia, nos Estados Unidos, das coleções femininas do estilista Hugo Boss. Era a semana da moda - a Fashion Week - e minha pauta prometia o roçar de cotovelos com manecas nos bastidores do evento numa tenda em Brian Park, na Sexta Avenida e Rua 42. Mas ao invés disso, fomos todos apresentados a um novo mundo, sem glamour ou arte. Paranoico e cheio de horrores. Minha cidade, vizinhos, família, amigos foram mergulhados à força num pesadelo que ainda dura, passada uma década.
“Um avião de passageiros chocou-se contra a parte superior da Torre Norte do World Trade Center”. O fato havia ocorrido cinco minutos antes e o locutor da emissora de notícias 1010 WIN (“Nos dê 10 minutos e nós lhe daremos o mundo”), começou assim o mais longo dos dias de Nova York.

Dali da West Side Highway, altura da rua 89, não dava para ver as torres gêmeas ao sul da ilha de Manhattan. O trânsito, normalmente infernal àquela hora, parou por completo. E eu, envergando meu melhor terno e gravata, entrei em desespero para chegar ao local do suposto acidente.

Às 9h15 tocou o telefone. Era um informante egípcio que eu julgava ser da organização terrorista Al Qaeda.
- Isso no World Trade Center não foi acidente. É um ataque ordenado pelo Sheik. Ouça bem: vão ocorrer outros. Mas você não vai mais poder me contatar. Estou saindo do país. Foi um prazer conhecê-lo.

E desligou. Nem precisou dizer quem era o Sheik. Eu sabia o nome do mandante: Osama Bin Laden.
Nunca mais ouvi a voz daquela fonte que conheci num churrasco numa pacata casa de subúrbio de Nova Jersey e com quem conversei muito sobre a organização terrorista Al Qaeda. Anos mais tarde, descobri que o homem era agente duplo.

Dezoito minutos depois do primeiro impacto, seria a vez da Torre 1 (ao sul) ser atacada por outro Boing 767. Ele havia feito a curva sobre o rio Hudson e embicado para a parte traseira do prédio. De onde eu estava já dava para ver as colunas de fumaça negra subindo ao céu claro. O informante estava certo: o Sheik atacava o coração financeiro da maior potência do mundo.

Às 9h35 consegui parar meu carro num estacionamento da Rua 59. Saí pela Décima Primeira Avenida tentando encontrar um meio de ir à Downtown.

Passou um dos onipresentes mensageiros de bicicleta. Dei-lhe US$ 20 para me levar até a área de China Town. Fui sentado na barra, vendo as multidões que se aglomeravam, primeiro à frente de televisores em vitrines e bares, e depois – mais ao sul- as que testemunhavam o terrível espetáculo ao vivo. Meu condutor parou na West Broadway com Canal Street. Ainda longe dos alvos. Mas era possível ver pequenos pontos escuros despencando dos prédios. Eram pessoas pulando.

Quando cheguei à Rua Murray, uma das torres havia desmoronado. A nuvem de poeira branca era infernal, mas o vento levava o grosso da fumaceira para os lados do Brooklyn, ao Leste. Desci no subsolo de um edifício onde sabia haver um banco de telefones públicos. Nossos celulares já não funcionavam e eu precisava avisar os editores da revista que me empregava que estávamos em cima da matéria.

Foi quando falava com o editor de Internacional que senti o começo do tremor no chão do prédio onde estava. O episódio serviu de abertura para a reportagem que escrevi na revista ISTOÉ:

“Eram 10h30 quando o edifício da esquina da Murray Street com West Broadway começou a tremer. No subsolo, parecia que um terremoto em escala jamais sentida em Nova York estava em furioso progresso. Mas as mães, chefes de família e repórteres, sujos de poeira, sabiam perfeitamente que aquela não era uma catástrofe da natureza. “Bomba!”“, alguém gritou. Pandemônio: a pequena multidão saiu correndo escada acima para ganhar a rua. Um erro do qual se arrependeriam. A West Broadway, uma das artérias da zona nova-iorquina de Tribeca, estava sendo engolfada pelo que parecia um maremoto de pesadelo. Uma gigantesca onda cinza avançava em alta velocidade por toda a vizinhança. Não era composta de água, mas de entulhos, cacos de vidro, estilhaços de madeira, projéteis de ferro, papéis e, imagina-se, pedaços de carne humana. Ratazanas enormes, como figuras de desenho animado, fugiam enlouquecidas. O vento quente foi o primeiro a atingir aqueles que não conseguiram correr no fluxo do caos, rumo norte. Uns caíram, outros se jogaram atrás de carros. Depois, veio a muralha dos escombros de um prédio que momentos antes tinha 110 andares. É difícil saber quantos se feriram naquele instante. A nuvem que encobriu o sul da cidade era tão intensa que tornava impossível enxergar as próprias mãos. O ar desapareceu: foi substituído por uma atmosfera sufocante. Tão sólida que poderia ser varrida do espaço, como se faz a um chão imundo. Durante o resto daquele 11 de setembro, terça-feira negra, não se conseguiu mais um respiro de alívio. Quando a poeira baixou um pouco, muito tempo depois, o skyline de Manhattan havia sido modificado de modo definitivo. Os maiores prédios desta cidade de arranha-céus – as duas torres do World Trade Center, as Twin Towers – sumiram do mapa.”

Eu ainda não sabia, mas meu amigo e quase vizinho Capitão Anthony Esposito fora o primeiro bombeiro a morrer. Uma pessoa desesperada pulara de um andar alto da Torre Norte e caíra sobre Esposito. Outros, muitos outros, tiveram o mesmo fim. Na mídia americana, um pacto fez com que as imagens de gente saltando das janelas não fossem mostradas.

Até hoje pouquíssima gente viu mais do que um solitário homem mergulhando de cabeça, com uma perna absurdamente dobrada, rumo ao solo. E outra foto, com duas mulheres de mãos dadas, parecendo estarem flutuando no ar, também chegou às vistas do público.
Vimos, porém, naquele dia centenas de pessoas, como anjos caídos do céu, preferindo o salto mortal às chamas das torres.
 
Os rádios de comunicação de bombeiros e policiais não funcionaram. O caos, mesmo antes da demolição dos prédios, dominara o local e, por extensão, toda a cidade. Essa situação permaneceria por vários meses, só que unida à imensa dor provocada pela consciência do tamanho da tragédia.

Como um repórter trabalha numa situação dessas? Perguntar o quê? Apurar que dados? Naquele momento o jeito que encontrei foi absorver tudo como quem assiste a um filme. O problema com esse método é que os personagens naquela obra de horror eram meus concidadãos, gente de minha cidade. Americanos, chineses, mexicanos, paquistaneses, alemães, brasileiros: meu povo.

Saí à noite, por volta das 23h, coberto de poeira branca, numa carona no carro de uma emissora de televisão americana que seguiria rumo norte, para os lados de minha casa. Antes de entrar no veículo, vi uma pequena árvore onde estava pendurada uma enorme quantidade de sapatos. E, pela primeira vez em minha carreira, chorei enquanto trabalhava.

fonte: R7

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por Diário de um Bombeiro às 11:11


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