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diariobombeiro



Terça-feira, 13.09.11

Dramas Portugueses em Nova Iorque

O 11 de Setembro mudou para sempre as vidas dos portugueses que estavam em Manhattan. Histórias de vida e de morte.

João Crisóstomo Júnior não gosta da palavra herói. Mas o pai, com o mesmo nome, assume o orgulho que sente pelo que o filho fez no dia mais terrível que Nova Iorque conheceu e que a América não mais esquecerá. Quando o primeiro avião estilhaçou o vidro e betão da Torre Norte, às 8h46, os trabalhadores do banco de investimento Goldman Sachs que estavam no Liberty Plaza (em frente às torres do WTC) refugiaram-se num abrigo subterrâneo que existia no edifício. João Crisóstomo Jr. era um deles. O arranha-céus foi severamente afectado pela queda das torres e só ao fim de várias horas os funcionários puderam sair. “Chamam heróis aos bombeiros e aos polícias que correram ao sítio dos atentados para salvar vidas. Mas essa é a missão deles. Que posso eu dizer do meu filho, que esteve ali até às seis da manhã a tentar ajudar a salvar vidas, sem que tivesse alguma obrigação de o fazer?”, conta o pai, residente em Queens, a leste de Manhattan. João não quer voltar a falar do assunto. “Escreveram notícias a dizer que ele ficou debaixo dos escombros, mas isso não é verdade e ele ficou aborrecido. O que ele me contou é que passou a noite a ajudar os bombeiros. A polícia quis tirar dali todos os civis, mas ele não arredou pé até às seis da manhã, sempre preocupado em fazer chegar garrafões de água a todos os que ali estavam a tentar salvar vidas”. João Júnior passou a madrugada angustiado com o que teria acontecido a um grande amigo, que trabalhava na Torre Norte. “Só no dia seguinte soube que esse amigo se tinha atrasado para o trabalho, e por isso escapou ileso ao ataque”, conta o pai. João vive hoje fora de Manhattan e trabalha na nova sede da empresa, em New Jersey. Para ele, aquele dia é uma recordação dolorosa. “Ele viu corpos esmagados nos escombros, num cenário de total destruição. Evita falar do assunto”.

Mão de fumo

Naquela manhã, Rita Barros acordou no seu apartamento do mítico Chelsea Hotel, na rua 23 de Manhattan. Foi à janela e apercebeu-se de algo estranho. “Havia muito fumo a sair de uma das torres do World Trade Center. Pensei que tinha sido algum acidente com um helicóptero”. Fotógrafa de profissão, fez algumas imagens antes de sair de casa, de bicicleta. “Tinha marcada uma reunião numa fundação que ficava a sul das Torres Gémeas”. Durante o trajecto, Rita apercebeu-se de que a situação era mais grave do que um mero acidente de helicóptero. “Fui fazendo mais algumas fotos pelo caminho, mas como havia outros edifícios à frente não me apercebi de que a segunda torre também tinha sido atingida e continuei a pedalar”. A viagem foi interrompida violentamente. “Vi  avançar pela rua aquele monstro, uma mão de fumo que engolia tudo à sua passagem. Foi irreal, ninguém conseguia compreender o que estava a acontecer”. Sem perceber que tinha acabado de cair a Torre Norte do World Trade Center, Rita Barros, como todos os que estavam na rua, deu por si a correr, em pânico. Os carros ficaram parados nas ruas, vazios, de portas abertas e com os rádios ligados. “Foi assim que me apercebi do ataque”, conta esta portuguesa de 54 anos, que vive em Nova Iorque desde 1980. As fotos que tirou nesse dia já foram vistas em exposições nos Estados Unidos e em Portugal, mas as marcas ficaram na memória e nunca se apagaram. Nem nela, nem na cidade: “O medo ficou impregnado. Há uma outra maneira de estar, menos despreocupada”.

Os irmãos de New Jersey

À hora em que a Torre Norte foi atingida, o capitão Arthur Sanhudo estava na sua casa, em Newark, do outro lado do rio Hudson. “Tinha feito o turno da noite nos bombeiros e fui acordado pelo telefonema de um colega, que me disse que havia fogo em Manhattan. Pensei que fosse um acidente, mas liguei a televisão e assisti em directo ao embate do segundo avião”. Nascido na Murtosa e emigrado para os EUA em 1964, Arthur orgulha-se de ter sido o primeiro bombeiro nascido em Portugal a chegar a capitão em New Jersey. No dia 11 foi cumprir o turno da noite nos bombeiros de Newark. “No dia 12, eu e mais uma dúzia de colegas apanhámos o metro e a polícia levou nos até à zona dos atentados. O governador de New Jersey não queria que fôssemos, mas nós pensámos nos nossos irmãos de Nova Iorque”. A chegada ao Ground Zero foi um choque. “Era uma tristeza enorme, toda a gente chorava. Pediram-nos para pegar em baldes para combater os focos de incêndio. Procurámos horas a fio por sinais de vida de sobreviventes, mas não encontrámos ninguém”. Arthur – que nasceu Artur mas mudou o nome porque ninguém o sabia pronunciar – viu coisas que preferia nunca ter visto – “corpos mutilados, gente desesperada, parecia um filme de guerra”. Teve de regressar a Newark, mas voltou a Manhattan no dia seguinte. “Tinham criado uma zona onde estavam a guardar os corpos encontrados. Pediram nos para não olhar, mas era impossível desviar os olhos”. No dia 14 chegou uma equipa federal de resgate e os bombeiros de fora de Nova Iorque foram afastados. Arthur reformou-se  em Outubro de 2010. Aos 59 anos, tem mais tempo para os três filhos e os três netos, todos americanos. Reconhece que é uma pessoa diferente: “Hoje, se oiço falar de fogos ou de explosões imagino que poderá ser algo mais do que isso”.

Luto sem fim

Seis meses antes do atentado, a portuguesa Virgínia Ferreira e David LeMagne, o homem com quem iria casar em breve, subiram ao topo do World Trade Center, em Nova Iorque. “Foi a primeira vez que ele lá foi. Nesse dia disse-me que era o sítio mais calmo onde tinha estado, que se sentia uma paz que não existia em nenhum outro lugar da cidade”. Ironicamente, foi numa das torres do WTC que David, filho de pai cubano e mãe porto riquenha, veio a encontrar a morte, deixando Virgínia, nos EUA desde a infância, com a vida em suspenso. “Perdi a pessoa com quem ia passar o resto da minha vida. Íamos mudar nos no dia 1 de Outubro para uma casa nossa e tínhamos tudo planeado: a reforma em Portugal, um ‘bed and breakfast’ [hotel] em Anadia, junto à vinha do meu pai. Até tínhamos decidido que ele seria polícia e eu enfermeira para termos flexibilidade de horários e podermos criar os nossos futuros filhos”. Passaram dez anos mas para Virgínia “parece que foi ontem”. As memórias do último dia na vida do noivo foram-lhe contadas por colegas  que o viram antes da derrocada da Torre Sul, para onde tinha ido como polícia e paramédico, mas é como se já fossem dela, de tanto que as pensou na última década. 
Nesse dia, Virgínia, então com 25 anos, estava no hospital da universidade de New Jersey, onde trabalhava como paramédica, quando o noivo lhe ligou a contar o que tinha acontecido em Nova Iorque. Mais tarde deixou-lhe uma mensagem. “Ofereceu-se para ir ajudar as vítimas e sabemos que sobreviveu à primeira torre, apesar de ter ficado ferido, e que continuou a trabalhar em conjunto com os bombeiros na segunda torre”. Foi encontrado sem vida a 14 de Janeiro, debaixo de todo aquele entulho.
 “Não sei dizer o dia em que perdi a esperança. Em Novembro, no primeiro memorial às vítimas, ainda achava que ele podia estar vivo, que ele podia aparecer de um dia para o outro e a nossa vida continuar”. Nada disso aconteceu. Do fatídico dia lembra-se dos corpos que não paravam de chegar ao hospital onde trabalhava. “Estavam a evacuar os feridos de Nova Iorque, eram imensos, mas fui tentando telefonar ao David. Às sete da noite fui para casa dos pais dele esperar por notícias e à meia-noite fomos ao posto da polícia onde ele trabalhava. Disseram-me que estava desaparecido e desmaiei”.
Durante dias seguidos “chorava  e dormia”. “Mesmo quando voltei ao trabalho, os meus colegas faziam tudo por mim, não conseguia, estava anestesiada pela dor”. Em 2009, cumprindo o trilho que tinham planeado juntos, terminou o curso de enfermagem, profissão que hoje exerce. Mas não conseguiu refazer a sua vida com outra pessoa. “Sinto que hoje estou no ponto em estarei daqui em diante, numa luta contra as memórias. Mas outra pessoa não. Quem sabe um dia. Mas sei que tenho o David a olhar por mim”. 

Morreu pelos colegas

Este domingo, Taciana Aguiar vai estar em Nova Iorque com a irmã, Monique. Juntas vão prestar homenagem ao irmão, João Alberto Fonseca Aguiar Júnior, uma das cerca de 3000 vítimas mortais dos ataques a Nova Iorque e Washington. Taciana lembra o irmão como um herói. “Ele trabalhava no 88º andar da Torre Sul. Quando o primeiro avião chocou com a Torre Norte, ele teve imediata intuição de que estava em perigo. Ligou à namorada a dizer que estava bem e que ia sair do edifício. Sabemos que meteu todos os colegas de trabalho num elevador e ficou à espera do próximo. E foi nessa altura que o segundo avião atingiu a Torre Sul, no andar onde ele estava”. João tinha 30 anos. Filho de pai português e mãe americana, nasceu em New Jersey, mas estudou em Cascais quando os pais se mudaram para Portugal. “Ele adorava o país. Tinha aí muito amigos. Ia-se casar com uma americana que também era apaixonada por Portugal. Naquela manhã, tinha saído de casa dela, para onde já tinha começado a trazer os caixotes com as suas coisas”, conta Taciana, que hoje vive na Califórnia.
A irmã conta que não teve dúvidas acerca do que tinha acontecido. “Percebi logo que ele tinha morrido. O corpo nunca foi encontrado, nem sequer uma peça de roupa ou alguma coisa que lhe pertencesse”. Mestre em Gestão por uma universidade francesa, João era um homem bem sucedido. “Tinham-lhe prometido um alto cargo na empresa financeira onde trabalhava. E planeava casar e ter filhos em breve”, conta Taciana.
João é um dos nove nomes de portugueses e luso-descendentes inscritos no memorial que é hoje inaugurado no sítio dos ataques. A  lista inclui os portugueses  Manuel da Mota, António da Rocha , António José Rodrigues Carrusca, Carlos da Costa  e os luso-descendentes Mark Jardim, Dennis Gomes, Christopher Mello e Raymond J. Rocha. 

Cenário de terror

O médico português Paulo Pacheco, hoje com 44 anos, então a trabalhar no maior hospital de Nova Iorque, esteve no meio da destruição dos atentados. Depois de tratar dos feridos – principalmente queimados, “corpos deformados como plasticina”, que foram chegando à medida que as ambulâncias os iam trazendo – não conseguiu evitar sair de casa no dia seguinte para procurar os vivos no meio dos escombros. “Vesti a minha bata e andei pelas ruas. Juntei-me a um grupo de bombeiros, não havia mais nenhum médico nas imediações, e a cada ruído procurávamos alguém que tivesse sobrevivido. Só víamos destroços humanos no meio de andares destruídos, pedaços de roupa, vidas destruídas. Foi a experiência mais vulnerável da minha vida: procurar e só ouvir silêncio. Nunca mais fui o mesmo, mas sei que fiz o mais acertado”.
Luís Mendes, alfacinha de nascença, trocou Lisboa por Nova Iorque aos 16 anos, em 1974. Nos EUA formou-se em arquitectura e trabalhou durante muito anos no Departamento de Design e Construção de Nova Iorque. Especializou-se em limpezas e demolições, mas nada o preparou para o  11 de Setembro. “Estava na oficina do  mecânico quando ele me contou o que tinha acontecido. Fui chamado de urgência ao Departamento e, ao início da tarde, fomos mobilizados para uma reunião no quartel-general da polícia. A seguir  fomos ao Ground Zero”. As imagens da televisão não o prepararam para o que o esperava: “Fiquei chocado. Estava tudo destruído e viam-se pedaços de corpos entre os 10 andares de escombros”. Era preciso tomar decisões rápidas: “Havia estruturas a desabar e a pressão da água do rio Hudson ameaçava provocar uma inundação brutal. Mas estavam a decorrer operações de salvamento e não podíamos usar as máquinas como habitualmente”. Luís foi um dos responsáveis logísticos pela megaoperação de remoção dos escombros. “No primeiro dia dormi duas horas. Andávamos exaustos, mas sentia-se um espírito de união. Numa cidade feita de individualismo, desta vez os egos ficaram todos à porta”.
Em 2005 Luís Mendes juntou-se à comissão que construiu o memorial às vítimas do 11 de Setembro. Fala da obra com orgulho: “Depois de cinco anos de construção, estou  feliz por estar tudo pronto. Espero que seja um local onde as pessoas encontrem  algum conforto”. 
Durante 25 anos, Manuel Parente usou o comboio todas as manhãs para se deslocar de Newark, onde vivia, para o Banco Espírito Santo. Saía na estação de Penn Station. “Mas naquele dia uma obrigação fez-me deslocar de metro para as Torres Gémeas, tinha de registar um relatório do banco no Federal Reserve Bank. Cheguei lá às 8h20, o primeiro avião bateu vinte minutos depois”, já Manuel estava à superfície. “Quando cheguei ao escritório, no 49º andar, vi as torres a caírem. Lembro-me das sirenes e  ambulâncias. Milhões a divagar pelas ruas. Fumo e poeira. Choros”. Manuel, de 74 anos está nos EUA desde 1966 e também foi correspondente do jornal ‘Luso Americano’ durante 40 anos. “Perguntou-me se tenho receio de Nova Iorque depois do 11 de Setembro. Sim. Tudo o que há de bom está lá mas tudo o que há de mau também”.

O dia seguinte na cidade das Nações Unidas nas ruas

“Nova Iorque acordou para um pesadelo a 12 de Setembro. A véspera fora, porventura, o mais longo dia da história contemporânea da América. Todos quantos vivíamos naquela cidade nunca esqueceremos os passos que então demos, desde a manhã da tragédia até à noite de todas as interrogações que se seguiu.
Mas nós éramos estrangeiros, por mais solidários que estivéssemos com as vítimas da barbárie. Os americanos acordaram diferentes, numa pátria agredida, com uma raiva incontida, feridos no orgulho e na carne, por uma violência implausível e sem paralelo.
Nova Iorque fora, até 11/9, uma cidade tolerante, aberta, com regras fáceis e um estilo de vida que seduzia europeus e chegava a intrigar muitos americanos. A forte presença de várias comunidades, de muitos credos e cores, transformara a cidade numa espécie de Nações Unidas nas ruas.
Para os americanos, com a queda das torres ruíra parte da confiança íntima de um povo que se olha a si próprio de uma maneira especial, nessa cultura nacionalista feita de religião, heróis e de um sentido de destino. Nunca a América vivera sob o medo interno e isso reflectiu-se na mudança que se vislumbrava no olhar das pessoas que cruzávamos, escrutinando os que pressentiam diferentes – pelo trajes, pela raça, pelo simples aspecto, pelo facto de não trazerem na lapela ou não colocarem na janela a sua bandeira.
A América cresceu com o sofrimento do 11 /9. E mudou. Obama é talvez a melhor prova disso”.
Francisco Seixas da Costa, Embaixador português na ONU, em 2001

Por Marta Martins Silva e José Carlos Marques
fonte: CM

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por Diário de um Bombeiro às 11:52


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