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diariobombeiro



Quinta-feira, 23.08.12

Suicídios estão a aumentar

Até onde pode ir alguém que vê a casa penhorada e está prestes a ser despejado? Quando ligou para o 112, António já tinha uma arma de fogo que comprara de propósito para se matar. Ao psicólogo do INEM que o ouvia do outro lado da linha, o empresário, de 56 anos, confessou que preferia morrer a passar pela vergonha de perder os seus bens, e arrastar os filhos para a penúria.

«E quem é que vai tomar conta deles?» – interpelou o psicólogo, ao perceber que os três filhos, dois deles menores de idade, eram a única âncora que ainda o prendia à vida.

O técnico explorou um argumento de peso. «Disse-lhe que se fizesse aquilo poderia abrir uma porta para que também os filhos o fizessem um dia. E é verdade: estima-se que os filhos de pessoas que se suicidam têm três vezes mais probabilidades de repetirem este comportamento» – conta ao SOL Márcio Pereira, que também é coordenador do centro de Apoio Psicológico e de Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM.

Ao fim de alguns minutos, a negociação deu frutos. António aceitou revelar a morada e foi acompanhado pela equipa do INEM até chegar ao hospital.

Quase todas as intervenções, garante Mário Pereira, são bem sucedidas. «Não julgamos nem pomos em causa a opção da pessoa. Mas quando tentamos perceber se já fez tudo o que podia para reverter a situação, dá-se o ponto de viragem».

904 pedidos até Julho

Em qualquer caso, o trabalho destes psicólogos clínicos é um desafio permanente: «Estamos sempre no fio da navalha: temos de nos ligar ao sofrimento da pessoa e sabemos que uma palavra mal dita pode quebrar a relação de confiança».

Nunca, em oito anos, os dez psicólogos deste instituto tentaram demover ou salvar tantas pessoas de se suicidarem. Entre Janeiro e Julho deste ano, o CAPIC prestou apoio a 904 cidadãos que manifestaram comportamentos suicidas, mais 27% do que em igual período do ano passado.

Há quem ligue ainda num estado de «ambivalência, mais para desabafar», e há quem queira apenas avisar as autoridades para evitar que sejam as famílias a encontrar o seu corpo. Entre ideações (alguém que verbaliza que se quer matar), intenções (alguém que, além de verbalizar, já possui o método e prepara-se para o fazer a qualquer momento) e tentativas de suicídio (alguém que já ‘passou à acção’), a maioria dos pedidos de ajuda partiu de pessoas com idades entre os 40 e os 49 anos e que pertenciam ao sexo feminino (56,4% dos casos).

Aceitou ajuda e foi levado para o hospital

«As mulheres tentam mais vezes matar-se, mas os homens escolhem meios mais letais», observa Márcio Pereira, explicando que o enforcamento continua a ser o método mais comum entre as vítimas, logo seguido das armas de fogo (preferidas pelos homens), do afogamento (mais característico das mulheres) e da intoxicação medicamentosa. Este método é mais falível: «Muitas destas vítimas ainda são encontradas a tempo e conseguimos resgatá-las».

No meio do azar, Manuel teve essa sorte. Quando há três meses enviou um sms de despedida a uma amiga que vivia a quilómetros de distância, não imaginava que ela ficaria assustada a ponto de pedir ajuda. Deu o telemóvel de Manuel aos psicólogos do INEM, que lhe ligaram de imediato. Nesse momento, já tinha ingerido uma quantidade de pesticida e preparava-se para esvaziar o copo que tinha à frente. A vida deste alentejano, de 35 anos, eclipsou-se no espaço de um ano: o pai falecera, perdeu o emprego (vivia do subsídio de desemprego) e foi abandonado pela namorada. Esta separação foi, para ele, a gota de água.

O psicólogo do INEM teve de endurecer o discurso. Foi-lhe dito que corria o risco não de morrer, mas de ficar com lesões e incapacidades se ingerisse mais líquido. Com a voz cada vez mais arrastada e quase a perder a consciência, o suicida caiu em si: aceitou ajuda e foi levado para o hospital.

Como ele, todas as pessoas que são assistidas por este serviço do INEM continuam a ser acompanhadas pelos técnicos durante os seis meses seguintes, através de chamadas telefónicas.

«Embora não explique tudo», nota Márcio Pereira, a crise «agudizou problemas e vulnerabilidades já existentes»: «Muitas pessoas admitem que não conseguem fazer face às despesas nem alimentar os filhos». E recorda o caso de uma mulher de 30 anos que, já este ano, se enforcou na casa da mãe, em Lisboa, onde passara a viver após o divórcio e por ter perdido autonomia financeira.

Foi o filho mais velho, de dez anos, que certo dia encontrou o corpo da progenitora – que estava de baixa psiquiátrica há alguns dias – estendido no chão da sala. No varão do cortinado, pendia uma corda com que a mulher se tinha enforcado.

Três suicídios por dia

A estatística do INEM acompanha, de resto, a tendência de agravamento dos números oficiais de suicídios em Portugal.

Segundo os dados mais recentes do INE, em 2010 foram 1.098 as pessoas que puseram termo à vida (três pessoas por dia, em média). Em 2011, apurou o SOL, houve pelo menos mais 110 casos (média de 3,2 por dia), confirmados através de autópsias do Instituto de Medicina Legal (INML). Já este ano, até Julho, este organismo já realizou 490 perícias que atestaram mortes intencionais.

Mas os números oficiais não traduzem a verdadeira dimensão do fenómeno, tendo em conta que «muitas vezes o Ministério Público dispensa a autópsia quando tem suspeitas fundadas de que não houve crime» – lembra Duarte Nuno Vieira, presidente do INML. Isto leva a que, nos certificados de óbito, a maioria dos médicos classifique como indeterminada a causa de morte.

Sabe-se, por exemplo, que muitos são os suicídios nas linhas de metropolitano e de comboio, bem como na Ponte 25 de Abril. Mas as respectivas empresas (CP, Metro e Lusoponte) recusam divulgar esses dados, remetendo para as autoridades. Contactadas pelo SOL, a PSP e a Polícia Marítima recusaram avançar esses números.

«O ideal seria fazer a perícia em todos os casos de morte violenta, pois é um elemento fundamental para assegurar que se tratou efectivamente de suicídio», defende o especialista, que destaca outra vantagem: «Permite um melhor conhecimento desta realidade, que é essencial para delinear programas de prevenção adequados».

É por este motivo, disse ao SOL José Carlos Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, que em Portugal «ainda não se pode, dada a fragilidade dos dados, avaliar a relação entre a crise social e o aumento do suicídio».

Crise agrava factores de risco

No entanto, admite o enfermeiro, «será expectável um aumento do número de casos, dado o aumento dos factores de risco – nomeadamente, o desemprego, a taxa de pobreza, a instabilidade social e a diminuição dos apoios sociais».

Ricardo Gusmão, professor de psiquiatria e saúde mental da Universidade Nova de Lisboa, corrobora: «Através de estudos já realizados, percebe-se que quando os países atravessam condições económicas desfavoráveis e elevadas taxas de desemprego, em que as pessoas estão menos protegidas socialmente, há um aumento da depressão e dos comportamentos auto-agressivos».

Só com «políticas de emergência sociais» e uma «capacidade de resposta médica ampliada», adverte, poderá garantir-se o contrário.

Fonte: SOL

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por Diário de um Bombeiro às 18:23



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