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diariobombeiro



Segunda-feira, 05.09.11

O FOGO NAO MORREU, INVERNOU

Pedro Almeida Vieira, autor do ensaio «Portugal: O Vermelho e o Negro», publicou hoje um artigo de opinião no diário «Público» sobre os incêndios florestais em Portugal, alertando para o enganador «sucesso» propalado pelo Governo nesta época estival.

Uma euforia triunfalista inundou Portugal ao longo deste Verão por, pela primeira vez na presente década, um ano ter ficado abaixo dos 100 mil hectares ardidos. «Habituados» que se ficámos com anos catastróficos – entre 2003 e 2005, cerca de 27% da área com potencial florestal do país foi literalmente devorada pelas chamas –, o Governo e vários sectores da sociedade «insistem» agora em nos alegrar que tudo será diferente no futuro. Acenam com estatísticas simples – ardeu 72 mil hectares (valores provisórios – e fazem comparações de pacotilha. Comportam-se como uma equipa de futebol acostumada a levar cabazadas de 15 a zero e que ficam felizes por depois perderem um jogo por 4 a zero, pouco se importando em saber se essa última «pequena» derrota se deveu a factores conjunturais ou se foi fruto de alguma melhoria estrutural. Olham para um ano com uma redução e quase anunciam a morte dos fogos.

Relatar situações de anos muito amenos a que sucederam anos dantescos seria fastidioso. Mas há um recente caso regional que é paradigmático dos riscos de festejar um ano para chorar no próximo: no distrito de Coimbra, o ano de 2004 tinha sido o mais ameno da última década, com apenas 524 hectares ardidos; em 2005 arderia 50.803 hectares – ou seja, 97 vezes mais.

Este exemplo serve para salientar que o fenómeno dos incêndios em Portugal é de carácter cíclico a nível regional, apesar de, com enorme gravidade, estar em processo de «globalização» a todo o território. E, por isso, para uma discussão séria sobre se os resultados deste ano foram bons ou maus, não se pode apenas fazer comparações com os anos imediatamente anteriores. Ainda mais porque, por triste ironia, este ano beneficiámos das catástrofes passadas. Embora devesse ser do senso comum, a floresta não é nenhuma fénix renascida. As áreas dizimadas nos últimos três ou quatro anos, maioritariamente em zonas de risco, estiveram agora em pousio. Mais: elas serviram de zona-tampão à progressão de novos incêndios, pelo que dificilmente este ano poderíamos sofrer incêndios com mais de 10 mil hectares em contínuo. Acresce a tudo isto, um outro factor sempre conjuntural, mas decisivo: este Verão foi o XXX mais chuvoso da última década, ainda por cima com precipitação bastante elevada em todos os meses.

Mas, mesmo assim, houve este ano em que muitos dão os parabéns ao Governo, dois sinais relevantes que deveriam ser motivo de forte desagrado. Por um lado, apesar dos factores atrás relatados e de 2006 terminar no oitavo ano em termos de área ardida ao longo da última década, o Minho não foi poupado, tendo mesmo ardido mais do que na Galiza em relação aos respectivos territórios. O distrito de Viana do Castelo é, aliás, um caso clínico: nos últimos seis anos foi afectado em 48% e este ano – o segundo pior de sempre – somaram-se mais 7%. A taxa de destruição desde o início desta década é 15 vezes superior à deflorestação da Amazónia. Medíocres este ano foram também as prestações no combate nos distritos de Braga (3ª pior ano da última década), Aveiro (4º), Leiria (3º) e Évora (2º). Na verdade, foram os desempenhos sobretudo nos distritos de Castelo Branco e Guarda que evitaram que se ultrapassasse a psicológica fasquia dos 100 mil hectares.

Por outro lado, as deficiências estruturais no combate mantiveram-se. Se até se concorda que a primeira intervenção melhorou – embora a contabilidade dos fogachos em Portugal seja muito «criativa» –, no combate estendido continuou-se com índices desastrosos, dado o excessivo número de fogos a superarem os 100 hectares. Incêndios que ultrapassam esta dimensão são já de elevada complexidade de combate e o grau final de destruição já passa a depender sobretudo da orografia e do tipo e continuidade da vegetação. Ora, este ano, de acordo com dados oficiais, de entre todos os incêndios (área acima de um hectare), 3,5% superaram os 100 hectares – um valor que, ao longo da última década, apenas foi ultrapassado em 2003 e 2005 (4,7% e 4,0%), sendo muito superior ao melhor ano (1997, com um rácio de 0,7%), em que ardeu apenas 30 mil hectares. Estes grandes incêndios não atingiram as dimensões dos últimos três anos por uma razão: fisicamente, em muitos casos era impossível.

Por fim, nesta «guerra» das estatísticas, o mais importante é saber se mesmo com valores semelhantes aos deste ano a floresta será sustentável. O actual Governo dirá que sim, tanto assim que na Estratégia Nacional para a Defesa da Floresta contra Incêndios, publicada este ano, estabeleceu-se como meta, até 2010, não superar os 100 mil hectares por ano. Nem de propósito, logo no primeiro ano o Governo «conseguiu» encaixar-se na meta. Mas, não sejamos tão ingénuos. Há cerca de uma década, o Relatório Porter indicava que para o sector florestal ser sustentável economica e ambientalmente não poderia arder mais do que 40 mil hectares, dos quais metade floresta. Esta referência até seria reconhecida pelo segundo Governo de António Guterres que em 1999 aprovou – com a presença de muitos dos ministros do actual Governo de Sócrates, incluindo o próprio – um plano de desenvolvimento sustentável da floresta portuguesa que estabelecia como objectivo que no período 2003-2008 ardesse, no máximo, metade do que se verificara no período 1993-97: ou seja, um pouco menos de 40 mil hectares. Contudo, se ainda estivesse em vigor, essa promessa – incluída em 50 páginas do Diário da República, de um plano que acabou engavetado – concluiríamos que afinal no período 2003-2006 já ardeu uma média anual de 240 mil hectares – isto é, seis vezes mais do que o objectivo traçado pelo Governo de Guterres.

Mas, claro, mudando-se a «fasquia» por decreto, esquecendo as promessas passadas, consegue-se sempre transformar algo de mau, em algo de bom. Porém, não é por isso que a floresta portuguesa se tornará sustentável. Pelo contrário, o Governo apenas se está a iludir e a iludir-nos, pois julga-se que tudo vai bem, quando afinal tudo continua mal. Em todo o caso, quem quiser que goze este ano, mas esteja convicto de que o fogo em Portugal não morreu; apenas está a descansar.

Fonte: www.pedroalmeidavieira.com

Sofia Richau
Administradora
Departamento Relações Públicas

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por Diário de um Bombeiro às 18:49


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