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diariobombeiro



Domingo, 05.08.12

"Salvar a mata"

Incendiários há muitos, pirómanos muitíssimo poucos. Aquele seria um. Pegaria fogo à mata e iria para casa masturbar-se.
Houve um incêndio em São Pedro, Manteigas, Serra da Estrela. Dali a uns dias, outro. Dali a uns dias, outro. O excesso de calor não podia arcar com aquilo. Deflagravam de madrugada. O chefe dos sapadores florestais e o ajudante organizaram-se. Não iam deixar que alguém destruísse o que se salvara no ano anterior. O solo é pobre. A serra demora anos a regenerar-se.

Na última madrugada, um rapaz da freguesia fora visto cá fora. Não tinha namorada, nem amante. Por que diabo andava na rua às três e meia da manhã? Sérgio Almeida, o chefe dos sapadores florestais, falou com o pai, da GNR. "Impossível ser esse! É muito certinho", reagiu o militar.
Armou-se em detective. Pôs-se a estudá-lo. Uma noite, cruzou-se com ele de carro. Inverteu a marcha um pouco à frente e seguiu-o, com discrição. Conseguiu apagar o incêndio minutos depois de ele o atear. Alertou a GNR. Um colega do pai apressou-se a recolher os indícios. Estava ainda quente o motor do carro que o rapaz estacionara em frente à casa dos pais. Havia uma embalagem de toalhetes coloridos lá dentro.

A PJ correu para lá. Para o caso vingar em tribunal, tinham de o tornar a apanhar em flagrante. Sérgio e o ajudante integraram uma estratégia, dessa feita com elementos da Autoridade Florestal Nacional, dos bombeiros de Manteigas, do Programa Ocupacional para Carenciados. Esperaram pouco pelo novo incêndio.
O rapaz confessou cinco. Não o fazia para se vingar, nem por padecer de alcoolismo, esquizofrenia ou atraso mental. Havia nele uma pulsão. Parava o carro, abria o vidro da janela, pegava fogo a um toalhete, atirava-o para a mata e arrancava. De casa, via as chamas a avançar.
Isto foi no Verão de 2006. Ficou dois ou três meses em prisão preventiva. O pai andou pela aldeia a dizer que matava quem o acusara. O Tribunal da Guarda condenou-o a uma pena de prisão - suspensa. O pai não tentou matar quem quer que fosse. O rapaz deixou de "pregar fogo". E a GNR passa em frente a sua casa, de vez em quando, para que perceba que ninguém se esqueceu.

Não me foi dado "entrar" na sua cabeça. Só pude tentar perceber o que ia na cabeça de Sérgio, uma tarde, já lá vai um ano. "Não foi trabalho em vão. Salvámos a mata", disse-me. Não fora o seu esforço, a sua persistência, que teria acontecido ao Parque Natural da Serra da Estrela? Lembrei-me muitas vezes dele ao ver agora há pouco imagens dos incêndios na Madeira, onde, num universo de 300 presos, ninguém responde por crime de incêndio florestal. Grata a quem, como ele, nunca desistiu de salvar pessoas e bens.
Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público

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por Diário de um Bombeiro às 10:52


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